It – A Coisa | Crítica

Stephen King andou mexendo com algumas coisas realmente esquisitas ao longo de seus mais de 40 anos como escritor. No entanto, não é na bizarrice que residem seus trabalhos de maior qualidade (ainda que a própria esteja presente em quase todos eles). Os melhores se encontram, na verdade, na intersecção entre o sobrenatural e o horror que surge de situações bastante identificáveis para qualquer leitor.

Bullying, parentes abusivos, racismo, obsessões destrutivas, separações, a impossibilidade de continuar após a morte de quem se ama. São temas que, numa amálgama inteligente com o horror psicológico que King é tão bom em construir, elevaram a carreira do autor ao status de grande mestre contemporâneo do gênero.

It – A Coisa, livro lançado em 1986, é um de seus esforços mais memoráveis porque ele une muitas dessas características no retrato que faz de uma sociedade bastante específica e ainda assim reconhecível para nós. E, o mais importante, no quadro que pinta de um grupo de jovens amigos constantemente oprimidos e ameaçados por seus colegas de escola, por adultos e até pelos próprios pais.

Ao entender a importância do círculo de confiança e apoio que se forma entre eles (que chega a ser mais do que amizade, trata-se de necessidade mútua), o diretor Andrés Muschietti, trabalhando ainda com algumas das ideias deixadas por seu antecessor, o ótimo Cary Fukunaga, finalmente cria uma adaptação definitiva do material.

Isso porque o problemático filme para a TV dos anos 90, apesar de contar com a icônica interpretação de Tim Curry como o palhaço Pennywise a seu favor, tinha também situações e diálogos ridículos, um clímax fraco e péssimas atuações trabalhando contra si.

Os atores, aliás, são uma das grandes vitórias da nova versão, com Sophia Lillis, Jack Dylan Grazer e Finn Wolfhard (o Mike, de Stranger Things) como destaques de um elenco mirim muito bem afinado. Bill Skarsgård também provou ser a escolha certa para o papel do palhaço dançarino, homenageando na medida a atuação de Curry e ainda assim criando algo novo e triunfantemente perturbador.

Há problemas de ritmo que tiram o impacto de certas cenas de terror. É nítida a dificuldade em algumas sequências para se adaptar um material tão extenso em relativamente tão pouco tempo, e por isso os acontecimentos soam ocasionalmente corridos. Mas isso fica longe de comprometer o resultado final

O foco nos pequenos e em como tudo se reflete neles, mais do que no que a Coisa significa, demonstra que o filme entende bem o que fez de It um dos melhores livros de terror de sua geração. Todo medo aqui nasce de um horror correspondente e bem real na vida dessas crianças. Enfrentar essas sombras e finalmente deixá-las para trás, junto com tudo que representa a infância, é um passo perigoso e assustador em direção à idade adulta (não é à toa que os personagens negam constantemente a diversão e segurança que as férias de verão antes representavam).

A história pode ser vista como uma metáfora para o amadurecimento e a perda que ele representa para cada um. É a dificuldade que o Clube dos Perdedores precisa vencer, de forma a deixar para trás tudo aquilo que os espreita a partir do escuro de suas consciências. E é o desafio lançado por um filme que entende muito bem o que significa ser criança, incluindo o medo que já acompanha essa noção difusa do que é ser adulto que todo mundo tem quando pequeno.

Cotação-4-5

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