Planeta dos Macacos: A Guerra | Crítica

De uma ficção científica misteriosa e chocante, com uma feroz crítica social embutida, para um filme de desenvolvimento de personagens em que os laços familiares e de amizade são construídos de forma sensível, com uma preocupação clara por todos os envolvidos.

Parece improvável, mas é esta a trajetória da franquia Planeta dos Macacos. Ao menos se considerarmos o filme original e a trilogia recente, que se encerra com este Planeta dos Macacos: A Guerra, o melhor desde o primeiro, de 1968.

Essa naturalidade colocada pelo roteiro prejudica, é verdade, o impacto da narrativa como a conhecíamos inicialmente. Porque o apocalipse humano não foi engatilhado por nossa ganância ou procura desmesurada pelo poder, mas pela busca da cura para uma doença: o Alzheimer.

Essa escolha não apenas invalida as palavras finais de um seminu Charlton Heston frente à Estátua da Liberdade (“We finally really did it. You maniacs! You blew it up! Ah, damn you! God damn you all to hell!”), porque nossa derrocada não foi um evento tão condenável para nós (talvez apenas pela crônica incapacidade de tratar bem os que julgamos inferiores, tendência retratada à exaustão nesses últimos filmes), mas a transforma em outra coisa. Torna-se um grito contra o desenvolvimento e nossa própria evolução como seres humanos.

Difícil dizer se os responsáveis pela nova franquia chegaram a pensar a fundo nisso, mas o fato é que conseguiram se manter fiéis à concepção que criaram para a história, goste-se ou não dela. Um feito nada desprezível para o cinema blockbuster atual, em que as pressões vêm de todos os lados e nem sempre empurram em direção às melhores escolhas.

Este último filme, porém, também faz algo que nenhum dos anteriores chegou a alcançar, colocando os macacos finalmente como únicos protagonistas de sua própria história e relegando os seres humanos ao papel que vêm ensaiando ocupar já há algum tempo: o de puros, simples e coadjuvantes vilões.

O que não significa que o coronel de Woody Harrelson seja um vilão comum, porque o roteiro jamais cai na armadilha de tornar esses personagens unidimensionais. Ele é uma pessoa má, sim, praticamente um louco, mas há razões, e boas razões, por trás de sua transformação. Até mesmo o filme sabe que existem mais do que apenas semelhanças superficiais entre ele e o coronel ensandecido de Apocalypse Now.

Por sua vez, às voltas com os mesmos dilemas do macaco Koba no filme anterior, César (criado graças ao sempre sensacional trabalho de Andy Serkis) é agora um combatente calejado, mas não “cascudo” o bastante para reagir com sangue frio a todo tipo de provocações. É, também por isso, o personagem mais compreensível e vulnerável de toda a franquia, embora não seja mais o único com essas características.

Enquanto o longa anterior tratava realmente de guerra, este último está mais para um filme de fuga da prisão, fuga da loucura generalizada. A forma estudadamente lenta com que o diretor Matt Reeves, no trabalho mais notável de sua carreira, conduz a ação cria um envolvimento real com a narrativa e com aqueles personagens, de forma que é possível entender e até simpatizar com todos eles.

A trilha sonora e os efeitos visuais, tão próximos da perfeição que se torna impossível diferenciar CGI de realidade, contribuem para esse efeito de imersão. Sim, pode-se dizer que o filme está longe das pretensões iniciais da franquia. Mas tudo bem, porque não há nenhuma lei ditando que deveria se manter fiel a elas.

Para o que se propõe a fazer, Planeta dos Macacos: A Guerra é técnica e criativamente impecável como pouquíssimos filmes lançados no grande circuito. E sua conclusão não poderia ser mais condizente, nem mesmo se apresentasse um homem encarando seus demônios frente a uma Estátua da Liberdade semidestruída.

Afinal, aquela era a história dos vencidos. Esta, a dos vencedores. E nesse pequeno espaço cabe toda a diferença do mundo.

Cotação-4-5

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