Dunkirk | Crítica

Ainda que mirabolantes e quase sempre planejados como uma engrenagem de relógio, os filmes do diretor Christopher Nolan deixam muita gente de nariz torcido até hoje. Isso porque faltaria ao cineasta uma centelha de emoção genuína que levasse seus filmes um passo além da simples perspicácia ou engenhosidade.

Em Interestelar, uma narrativa de ambiciosidade intergaláctica, pode-se dizer que Nolan tentou dar esse passo, intercalando sua história sobre buracos negros, viagens interplanetárias e estranhos mecanismos de comunicação à distância com ideias um tanto juvenis sobre o amor e os laços humanos. O que o filme conseguiu, porém, foi  alcançar um resultado inferior ao de seus longas anteriores e atrair ainda mais haters, assim como admiradores encarniçados.

Em Dunkirk, sua produção mais recente, com a intenção de seguir na direção exatamente oposta, o cineasta investe em uma história de guerra em que os personagens não têm passado nem tempo de tela suficiente para construir grande empatia com o espectador. São soldados britânicos, e o que sabemos sobre eles se resume aos momentos de desespero que passam tentando escapar da praia francesa de Dunquerque, onde são encurralados pelas forças nazistas.

E funciona. Ao menos parcialmente. A aclamação que o longa tem recebido se deve quase toda às sequências de ação realistas e bem coreografadas, capazes de gerar tensão suficiente para deixar o público na ponta do assento sem nem perceber. Essa é a força do filme, a crueza de seus momentos de batalha, muitas vezes contra inimigos invisíveis e aparentemente invencíveis. Para os personagens, vencer não é uma possibilidade, pois a única vitória possível é uma fuga humilhante.

Para extrair força dessa situação, Nolan lança mão de sua larga experiência e de alguma inventividade, gerando cenas bem construídas, algumas beirando a perfeição, como a sequência que reúne um grupo de jovens dentro de um barco, usado como base de tiro ao alvo para as forças inimigas, ou ainda o momento em que uma outra embarcação vira lentamente sobre as águas.

A força desta segunda cena reside no fato de que o cineasta instalou câmeras rente à superfície do barco, dando a impressão de que uma muralha de água se ergue contra ele e o engole aos poucos, aumentando ainda mais a sensação de angústia e incerteza quanto ao destino daqueles soldados, que vão sumindo dentro de uma onda aparentemente infinita.

Tecnicamente, o longa só peca mesmo nas sequências aéreas, nas quais muitas vezes se torna difícil definir o que está acontecendo. Esse problema é sanado em parte pela excelente atuação de Tom Hardy, que confia na expressividade dos olhos para compensar o fato de que mais da metade de seu rosto fica tampado ao longo do filme inteiro.

Os problemas narrativos, no entanto, não são inteiramente varridos para debaixo do tapete aqui. Ainda há um personagem cuja única função é explicar tudo o que está acontecendo (a honra desta vez coube a Kenneth Branagh). Por outro lado, os únicos que têm detalhes de suas vidas pregressas revelados e que ganham algum desenvolvimento são os tripulantes de um iate particular, e que, além de contarem com histórias rasas e pouco inspiradas, ainda são a parte menos interessante de Dunkirk.

A divisão da narrativa em três espaços de tempo completamente diferentes acaba por dar bons frutos, apesar de ser apresentada de maneira desnecessariamente didática logo no início, estragando parte do impacto. A trilha sonora, que é boa e inspirada, elevando a tensão em muitos momentos, também acaba por atrapalhar o andamento do longa ao não reconhecer a necessidade estratégica de silêncio em determinadas cenas.

O que mais frustra em Dunkirk, no entanto, é a conclusão, que apela descaradamente para um discurso inspirador e edificante, indo de encontro ao que Nolan tentava construir até ali. Não que haja algo de errado em tentar emocionar o público. Mas, como no filme não existe quase nenhuma base anterior sobre a qual se firmar, a coisa toda soa mais como um truque mambembe para que o espectador saia inspirado da sala de cinema do que como algo que surja naturalmente do desenvolvimento narrativo.

Cotação-3-5

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