CL 6 Anos: Clube dos Cinco e os dramas atemporais de uma época

John Hughes é um nome que dispensa apresentações. Diretor que marcou toda a geração oitentista, seus filmes se tornaram verdadeiros ícones da Sessão da Tarde, sendo praticamente o retrato cinematográfico da juventude daquela época. E talvez o mais sensível de seus trabalhos seja este Clube dos Cinco, onde o espírito desajustado da adolescência é discutido em todos os protagonistas, cada um representativo de uma “tribo” diferente que configura um típico ambiente escolar.

Cinco jovens: um nerd, um atleta, uma princesa, uma neurótica e um marginal. Assim é definido o grupo que é obrigado a passar um sábado na escola para cumprir uma detenção. Cada qual com seus problemas familiares, suas desilusões, suas pressões na vida e também com seus grupos sociais bem definidos. À parte das diferenças e animosidades que afloram num primeiro momento, cada um se verá curiosamente similar aos outros a medida em que se expõem para o grupo e assim, através do mais puro diálogo, os cinco acabam criando um forte laço de companheirismo, amizade e até mesmo alguns flertes românticos. Um sábado de detenção que se transforma em verdadeira sessão de terapia conjunta.

E é basicamente este o conceito do filme. Simples, não? Mas é justamente nesta simplicidade do roteiro e também na dinâmica entre as atuações que reside a enorme beleza de Clube dos Cinco. É fato conhecido que os atores tiveram uma imensa liberdade para o improviso, e é visível o quanto isso contribui para o desenvolvimento do filme. Os personagens e suas interações é que são o foco.

Tendo um destaque maior, o rebelde John Bender (Judd Nelson) é a força provocadora que se esforça o tempo inteiro para extrair alguma verdade dos outros integrantes, aparentemente mais “dentro do padrão” e comportados. É através dele que o grupo é compelido a se manifestar, mas também essa rebeldia esconde no fundo uma enorme carência por atenção.

E se Brian (Anthony Michael Hall) e Andrew (Emilio Estevez) acabam mostrando que, mesmo em papéis antagônicos como o nerd e o atleta, ambos precisam lidar com a mesma pressão de sempre alcançarem o sucesso, Claire (Molly Ringwald) se apresenta muito mais humanizada que o esteriótipo “patricinha” pode dar a entender. Completando o quinteto, a introvertida Allison (Ally Sheedy) se revela como a personagem mais interessante dali, com seus maneirismos, sua cleptomania e seus olhares expressivos, sempre observando tudo ao redor e guardando para si seus próprios pensamentos, mas também clamando por atenção.

Ao final do filme, sob o som melancólico e lindamente simbólico de Don’t you forget about me, somos levados a refletir sobre o significado daquela reunião. Afinal de contas, não estamos todos nós mergulhados também em nossas próprias bolhas sociais, mas tendo que ironicamente lidar com problemas que são bem parecidos?

Neste sentido, mesmo carregado de essência oitentista (uma época menos hipócrita onde não se tinha vergonha de admitir que a juventude consume drogas, por exemplo) e lidando diretamente com a questão da adolescência, o filme ganha um caráter universal e atemporal. Em muitos sentidos, aqueles cinco personagens representam também qualquer grupo que se corte em nossa sociedade (etnia, religião, gênero etc) e aquela escola pode ser muito bem representativa do nosso sistema.

Será que não estaremos todos necessitados de passar um sábado presos na escola para podemos conversar melhor entre nós mesmos?

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