CL 6 Anos: Um Príncipe em Nova York e o cinema “black power”

Quem passou a infância e adolescência entre os anos 1980 e 90 sabe: Eddie Murphy era o rei da comédia. O ator estrelou e produziu dezenas de clássicos da época, desde Trocando as Bolas, a trilogia de comédia de ação policial Um Tira da Pesada, até chegar a Dr. Dolittle. Depois o ego chegou à estratosfera e foi caindo como um meteoro, salvo algumas exceções, como a voz do burro em Shrek e a indicação ao Oscar por Dreamgirls, mas isso acabamos por esquecer quando pensamos em seu grande vencedor do Framboesa de Ouro, Norbit.

Mas vamos fazer uma viagem no tempo naquela época em que Murphy, saído do humorístico Saturday Night Live, era sinônimo de gargalhadas na certa com seus personagens que pareciam metralhadoras de palavras. E de todos os clássicos de sessão da tarde que estrelou, o mais significativo talvez seja Um Príncipe em Nova York (1988), longa que escreveu, produziu e estrelou não só um, mas quatro personagens (e estabeleceu um estilo de multi-papéis que levou a outras produções).

Um Príncipe em NY narra a história de Akeem, o príncipe de Zamunda (um país africano fictício), que, insatisfeito por nunca ter feito nada sozinho em seus 21 anos e por não querer se casar com uma mulher submissa, parte para Nova York, mais especificamente o bairro do Queens, para encontrar a mulher ideal: inteligente e independente.

É interessante analisar hoje em dia todos os estereótipos que o cinema de Hollywood fazia de tudo o que era estrangeiro; tudo era sempre precário, selvagem, exótico. Mas ao retratar Zamunda, Murphy transforma este lugar de origem de seus ancestrais numa terra quase de contos de fadas, seu palácio parece o de Oz, as vestimentas africanas são luxuosas, o número de dança (feito pelos mesmos dançarinos de Michael Jackson) é incrível. E elefantes, zebras e girafas andam livremente pelos jardins do castelo.

Assim, quando se trata de um afro-americano mostrando uma versão de sua terra-mãe e chegando à América para viver como um homem negro norte-americano padrão e ser tratado ou como invisível, ou com preconceito, mas, sendo o herói da história, superando todos os obstáculos (com muito humor, claro), é sem dúvida uma ação de emponderamento e representatividade.

Agora, uma pausa para o comercial:

Os EUA tem essa forma deveras peculiar para lidar com a questão racial na arte e no entretenimento, lá existe a música negra, os programas de TV negros e o cinema negro, e por mais que o branco tenha se apropriado culturalmente de quase tudo isso, ainda existe essa categorização e os espaços ainda são delimitados.

Já sobre a questão de gênero, não deixa de ser surpreendente que Murphy tenha feito essa escolha de criticar a submissão feminina e que seu personagem parta em busca de um relacionamento com igualdade, fazendo uma subversão da síndrome de Cinderela.

Trivia:

  • O filme marca o início da carreira de dois grandes astros do cinema até hoje: Samuel L. Jackson, que faz uma ponta como um assaltante da lanchonete onde Akeem trabalha, e Cuba Gooding Jr., que praticamente faz uma figuração numa cena na barbearia, entrando mudo e saindo calado.
  • Todos os personagens da barbearia (com exceção do Sweets) e da apresentação do dia da Consciência Negra, além da mulher predadora no bar, são interpretados por Eddie Murphy e por Arsenio Hall (cujo papel principal no filme é o de amigo/servo de Akeem, Semmi), inclusive o personagem Saul, um homem branco e judeu. Murphy o criou para fazer uma crítica ao blackface (quando atores brancos se pintavam para interpretar personagens negros).
  • A lanchonete onde Akeem e Semmi vão trabalhar é um plágio do McDonald’s, e apesar da rede ter aprovado o “merchan“, a lanchonete local não foi avisada, e quando a produção colocou o logo no local que serviu de set (que foi realmente filmado no Queens Boulevard), teve treta, o caso do fotógrafo aconteceu de verdade e depois incorporado ao filme.
  • Há também um crossover em O Príncipe em NY: Quando Akeem entrega um saco de dinheiro a dois moradores de rua, eles são nada menos do que os Duke Brothers (Ralph Bellami e Don Ameche), personagens de Trocando as Bolas, milionários que perderam a fortuna por “culpa” do personagem de Eddie Murphy no filme de 1983, o primeiro sucesso cinematográfico do ator.

Mas o que faz Um Príncipe em Nova York ganhar o status de clássico? Bem, quase trinta anos depois, ainda é impossível ignorá-lo quando nos deparamos com ele ao zapear a TV, e continua hilário, mesmo depois de visto tantas vezes.

“Você realmente abriria mão de tudo isso por mim?”
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