A mentira nossa de cada dia e como o cinema a encara

Se você frequentou os cinemas brasileiros no começo dos anos 2000, você provavelmente deu de cara com uma campanha feita pelo Ministério da Cultura anunciando que DVDs piratas e downloads ilegais eram crimes tais quais assaltar uma loja ou roubar um carro. Passados alguns anos, DVDs piratas ainda são vendidos por camelôs e downloads ilegais não pararam de crescer, e se você perguntar pra qualquer pessoa que usa torrents, a chance dela se sentir uma criminosa é mínima.

No documentário “(Dis)Honesty: The Truth About Liesou (DES)Honestidade: a Verdade sobre as Mentiras” (disponível na Netflix) o professor Dan Ariely discute a nossa propensão para a mentira e a trapaça, às vezes mesmo que inconscientemente e como estabelecemos uma linha do que é uma corrupção aceitável ou não.

O cinema por diversas vezes já tratou desse tema, seja em comédias como “O Mentiroso” com Jim Carrey ou o menos conhecido “O Primeiro Mentiroso” com Ricky Gervais, passando ainda pelos recentes O Lobo de Wall Street e A Grande Aposta esses dois últimos retratando consequências bem mais graves, de ordem econômica internacional, inclusive.

No documentário, Ariely aplica um teste conhecido como “The Matrix Experiment” em que algumas pessoas recebem um teste com questões de matemática e apenas 5 minutos para respondê-las. Ao final, elas deveriam colocar o teste em um triturador de folhas e afirmar para os aplicadores o quanto haviam acertado e receberiam um dólar para cada resposta correta. O que eles não sabiam é que o triturador picotava apenas as laterais do teste, permitindo que os avaliadores pudessem confrontar o resultado real com o informado.

Após a análise, pode-se constatar que existem basicamente dois tipos de trapaceiros, os grandes e os pequenos. De todas as pessoas que fizeram o teste, apenas 20 trapacearam dizendo terem acertado todas as perguntas, o que gerou um prejuízo de “apenas” $400,00. Os pequenos trapaceadores, aumentavam o número de acerto em duas questões para mais comente, mas representavam 28.000 pessoas, causando um prejuízo de $50.000. Ou seja, para a nossa percepção, nós não achamos estar tão errados se damos apenas um passo em direção à fraude.

Essa é, portanto, a motivação de vários personagens no cinema, em “O Lobo de Wall Street”, o personagem de Leonardo DiCaprio, Jordan Belfort, começa vendendo ações fora do pregão de preços baixíssimos, principalmente criando especulações para pessoas de baixa renda, a mudança ocorre quando Belfort tem a brilhante ideia de criar sua própria corretora fazendo a mesma coisa, mas com pessoas ricas.

“No fim das contas, tudo se resume à racionalização. Enquanto trapacearmos só um pouco, não pagaremos nenhum preço em termos da imagem de como nos enxergamos” Dan Ariely, definindo o que ele chama de “Fator Lorota”

O problema disso (além do impacto econômico) é que nosso cérebro começa a se acostumar com a linha que acabamos de ultrapassar. Ainda segundo o documentário, se você é uma pessoa honesta e que não costuma mentir, e por algum motivo você mente, o seu cérebro reage àquele fato, e geralmente a sensação de culpa se manifesta. À medida que esse comportamento começa a se repetir, o seu cérebro não mais vê aquilo como algo estranho, isso se dá pela sua enorme capacidade de adaptação.

Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street

E é exatamente o que ocorre com Jordan Belfort no filme, que vê o seu esquema ficar cada vez maior, mas não parece se importar com as consequências, organizando sempre orgias e festas rodadas a drogas no próprio escritório, como a galera conseguia trabalhar ainda assim, é um mistério pra mim.

E quando há um bem maior?

Essa situação é bem mais comum em filmes porque é bem mais fácil de nos identificarmos. E quando achamos um motivo, um bem maior para mentirmos, isso justifica a trapaça? Aparentemente sim. Seja Dumbledore mentindo para o Harry Potter sobre o verdadeiro significado da profecia, seja Alex Kerne em “Adeus, Lênin” mentindo para a sua mãe sobre a restauração do capitalismo na Alemanha, sempre que acharmos uma razão que transcende o nosso ganho pessoal, a gente deixa de ver aquilo como um comportamento reprovável.

Tomemos como exemplo o clássico da Sessão da Tarde, Uma Babá Quase Perfeita, em que Robin Williams vive um pai que é obrigado a se afastar de seus filhos por conta do divórcio com sua esposa, e em razão disto se disfarça da gentil senhora Doubtfire, com o objetivo de reaproximar-se das crianças.

Robin Williams no filme “Uma Babá Quase Perfeita”

Tal situação casa perfeitamente com outro aspecto analisado pelo professor Ariely: a mentira anda de mãos dadas com a criatividade, e deste preceitos podemos tirar diversas interpretações. A primeira é aquela voltada para o crime, como é o caso dos Golpes Pirâmide ou ainda da “bolha” criada no mercado imobiliário dos EUA, como vemos em “A Grande Aposta” e a segunda é que quando estamos em uma situação desesperadora (no caso perder o contato com os filhos), somos capazes de qualquer coisa (até mesmo de vestir como uma senhora de idade).

A terceira e última conclusão que faço é que, apesar de tudo, se não houvesse a mentira, nós não teríamos a arte, não existiriam livros de ficção, peças, novelas, etc. A própria imaginação estaria em extinção e por consequência todo o avanço tecnológico seria bem reduzido comparado ao que temos hoje a nosso dispor. Apesar dos pesares, há de se convir que a mentira auxilia o convívio social (como vemos em O Mentiroso), e dificilmente se tornará uma característica extinta do comportamento humano. Afinal, já dizia o Dr. House: “Há uma razão para todo mundo mentir. Funciona.”

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