Clássicos | Festim Diabólico

Uma das grandes características do suspense de Hitchcock é o controle das coisas que devemos saber, geralmente os espectadores tem mais informações do que os personagens, o que nos deixa aflitos com o desenrolar dos fatos. O próprio Hitchcock afirmava que se temos uma cena em que um casal está conversando em uma mesa e uma bomba explode, temos um susto. No entanto, basta fazer uma pequena mudança e informar ao público que existe uma bomba debaixo da mesa com o cronômetro e temos uma boa cena de suspense.

Em “Festim Diabólico”, originalmente “Rope”, temos um exemplo quase que literal disso, só que a bomba no caso, é o corpo do jovem David Kentley que havia sido enforcado pelos colegas de universidade Brandon Shaw (John Dall) e Phillip Morgan (Farley Granger) e é mantido por bastante tempo dentro de um baú que serve de mesa central para uma festa que reune amigos e família de David.

“Festim” trouxe alguns aspectos bem inovadoras para a época em que foi feito, o primeiro deles e bem óbvio que é o primeiro filme do cineasta britânico colorido, filmado em Technicolor, um grande avanço para a época. O segundo aspecto é que, ao contrário do que pode parecer, o longa não é filmado em um único plano sequência, mesmo porque o negativo das câmeras à época permitia gravações de até 10 minutos somente. Entretanto, com cortes bem sutis e uma boa direção sincronizada dos atores permite termos a impressão de que tudo foi filmado de uma vez só.

Por fim, outro aspecto inovado trabalhado pelo diretor chega a passar despercebido por olhares menos atento que é o subtexto homossexual da história. Brandon e Phillip são claramente um casal, porém o diretor não faz alarde para o fato, principalmente pela censura do Código de Produção que existia à época, mas deixa isso claro com os detalhes como por exemplo o fato dos atores serem homossexuais ou quando mencionam que há apenas um quarto no apartamento, algo simples mas que demonstra a inteligência do diretor em construir seus filmes.

Baseado em uma peça de teatro, a escolha de dar a impressão de plano sequência poderia dar um ar teatral ao filme, o que o tornaria bem enfadonho, mas a movimentação da câmera, os planos e travellings deixam a produção mais agradável de se ver. A sutileza com que o diretor comanda a trama vai desde aspectos visuais como as nuvens ao fundo que foram feitas de fibra de vidro, até o nome do filme, que em inglês significa corda e que representa um momento crucial na trama.

Voltando à história do filme, uma vez de posse de informações cruciais, Hitchcock começa o seu filme de tortura ao espectador. Apesar de aparentemente não estar presente, David é citado a todo o momento e dá margem a várias discussões, a principal delas sendo a teoria defendida por Brandon e pelo professor Rupert Cadell (James Stewart) de que o homicídio é uma forma de arte, necessária até em diversas situações, e a combinam com o conceito do Super-Homem de Nietzsche. Aos poucos vamos conhecendo melhor as motivações dos personagens principais, seus medos e seus desejos.

Dessa forma, percebe-se que a opção de montar um filme “sem cortes” casa perfeitamente com a ideia de suspense crescente, que se baseia em diálogos e não em cortes abruptos, ou uma trilha sonora que surge num momento específico. A ideia de naturalidade nos aflige ainda mais porque sabemos que os personagens estão próximos a uma bomba que uma hora ou outra irá explodir e que quando (e não “se”) isso acontecer o mundo de todos aqueles personagens mudará completamente.

Apesar de todas essas nuances, o filme foi fracasso de público e crítica. O próprio Hitchcock afirmou anos depois que o filme era um experimento que deu errado, o que eu não poderia discordar mais. “Rope” é um filme que, passados quase 70 anos, ainda traz discussões extremamente atuais sobre o comportamento humano, tudo isso feito com um suspense de primeira qualidade.

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