Ao Cair da Noite | Crítica

Alguns dos melhores diretores de terror do cenário atual têm demonstrado ter pouco ou nenhum interesse em agradar aos fãs, digamos, mais casuais do gênero. Foi assim com filmes ótimos como A Bruxa e Corrente do Mal, que, no entanto, possuíam uma falha essencial aos olhos do grande público: não tinham sustos nem davam medo o suficiente.

Essa simples constatação é um dos motivos para a divisão que existe nos últimos anos entre o gosto do público e de críticos em relação ao cinema de horror. Os “filmes de sustos” que toda semana chegam aos cineplex do mundo todo deixaram a plateia mal acostumada. Afinal, o gênero vai muito além disso. É feito de coisas como construção de atmosfera, dramas de personagens e uma fundamentação profunda e psicológica para o horror mostrado.

Ao Cair da Noite tem todas essas coisas e ainda evita a todo custo se render aos sustos fáceis. Evita a tal ponto que é de se perguntar se o longa chega a ser de fato um filme de terror ou um suspense um pouco mais sombrio que o usual (as últimas cenas, no entanto, respondem muito bem a essa dúvida).

Nós tendemos a nos esquecer de que dramas humanos podem ser fontes de muito mais horror do que um monstro ou uma assombração qualquer. No filme, isso é particularmente mais terrível porque somos lembrados a todo momento de que estamos assistindo a pessoas decentes e comuns, pessoas que não são más e que, em outras circunstâncias, poderiam muito bem viver como nós mesmos vivemos.

O longa, portanto, age de maneira cruel ao nos fazer simpatizar com Paul (Joel Edgerton), sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kelvin Harrison Jr.), e também com Will (Christopher Abbott), Kim (Riley Keough) e o pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner). Eles não estão de lados opostos, mas tateiam lado a lado dentro de uma eterna escuridão. Criar empatia por algo que será destruído é estratégia típica do diabo.

O filme de fato abusa das sequências de sonhos (e de sonhos dentro de sonhos) a pontos de ser ocasionalmente previsível, mas nada apaga o excelente trabalho do diretor Trey Edward Shults na lenta construção de conflitos.

Repetindo o que já tinha feito com maestria em Krisha, um drama familiar que era na verdade um filme de terror, o cineasta aqui inverte as posições, criando um longa de terror que na verdade é um drama familiar. E que, é claro, também não tem ido bem de bilheteria.

Talvez os diretores autorais do gênero devessem realmente se preocupar um pouco mais em conquistar o grande público. Ainda assim, fica difícil defender demais esse argumento, porque novos cineastas têm lançado nos últimos anos coisas ótimas como A Bruxa, Babadook, Corrente do Mal e este Ao Cair da Noite.

Por outro lado, Corra! e O Homem nas Trevas são exemplos que fizeram a ponte entre um bom público e alta qualidade, demonstrando que existem sim maneiras de produzir sucessos de bilheteria que também são excelentes e autorais.

Para falar a verdade, há espaço para quase tudo. O que se precisa mesmo, no fim das contas, é de um marketing que não tenha a intenção de iludir ao invés de procurar falar com o público-alvo da obra que está vendendo. Que não queira confundir o espectador propositalmente.

Porque, se há algo que o tempo provou, é que esse tipo de tiro acaba sempre parando no pé de quem atirou.

Cotação-4-5

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