Corra! | Crítica

Filmes que tratam de um fim de semana desconfortáveis conhecendo a família da namorada são bem comuns em comédias; filmes que abordam o racismo de maneira cruel da mesma forma são mais comuns em dramas; bem mais raros são aqueles que conseguem, de maneira original, ligar esses dois nichos e surpreender o espectador com uma história que te deixa cada vez mais preso na poltrona dos cinemas.

Chris Washington (Daniel Kaluuya) e Rose Armitage (Allison Williams) estão juntos há cerca de quatro meses e agora ele se prepara para passar o fim de semana na casa dos pais dela. Com alguma hesitação, Chris pergunta se eles sabem que a filha namora um homem negro, o que seria apenas uma apreensão ganha ares de grande preocupação, uma vez que minutos antes assistimos a um jovem negro ser sequestrado no meio da noite em um bairro do subúrbio americano.

São com essas ligações que aos poucos o diretor Jordan Peele vai construindo o seu suspense, desde o acidente na estrada com o veado, até o comportamento bizarro dos empregados da família de Rose, tudo indica que algo está errado, porém a forma como Peele conta a história só nos permite saber do que se trata quando de fato está sendo mostrado em tela. Há pouco espaço para previsibilidade dentro do roteiro, e boa parte das previsões que fiz durante o filme foram frustradas (felizmente!).

Funcionando mais como um filme de suspense do que como filme de terror propriamente dito, “Corra!” ainda conta com alguns alívios cômicos na figura do personagem Rod, amigo de Chris que é o primeiro a representar a inquietação do espectador em relação à todos os eventos estranhos que ocorrem, mesmo sem ele saber que o amigo estava diante de um plano que mesclava a perpetuação da escravidão e a extensão da vida através de métodos cruéis.

De maneira geral, “Corra!” poderia facilmente ser um episódio especial da série britânica Black Mirror uma vez que faz uma crítica social nas vozes do “o velho racismo em uma forma nova”, e contém uma tecnologia desenvolvida pelos personagens para manter esse status quo. Durante esse precedimento, há uma etapa conhecida como “esquecimento” em que a pessoa que é submetida começa a deixar de ser quem ela realmente é, diante de uma sociedade opressora construída em fundamentos racistas, não há nada mais assustador do que ver que a ficção não está muito longe da realidade.

Cotação-4-5

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