Alien: Covenant | Crítica

Pode ser uma espécie de clichê pensar que, conforme uma pessoa envelhece, ela passa a se preocupar mais com filosofia e com isso que chamamos as questões fundamentais da vida humana. Se pensarmos na trajetória de Ridley Scott como diretor da franquia Alien, porém, esse estereótipo acaba se provando real.

Enquanto Alien, o Oitavo Passageiro, um suspense que continua sensacional após quase 40 anos de seu lançamento, era pouco mais do que um jogo de gato e rato (no caso, um rato incrivelmente nojento e mortal) dentro de um ambiente claustrofóbico, Prometheus, a alardeada prequel de cinco anos atrás, era, além de uma aventura espacial, também o retrato de uma intensa busca pela origem da vida na Terra. E do horror que se encontra na gênese daquilo que é humano.

Claro que esse tipo de análise tem um quê de forçação de barra, levando-se em conta que Scott já demonstrava interesse por “temas maiores” (muitos semelhantes aos de Prometheus, inclusive) pelo menos desde a ficção científico-filosófica Blade Runner. Mas, se este filme era uma ode ao mesmo tempo genial e imperfeita à dualidade criador/criatura, o talento do cineasta para explorar o tema em filmes tensos e instigantes parece ter murchado sensivelmente com o tempo.

Prometheus, apesar de seus muitos problemas e falhas, ainda era em parte redimido pela assumida ambição. O mesmo, no entanto, não pode se dizer de Alien: Covenant, um longa interessado em mesclar as metades Alien e Prometheus da laranja, mas cujo resultado é, de muitas formas, bem menor e menos interessante que ambas as partes.

A história é mais ou menos o de sempre: Depois de acordados por uma falha mecânica, os tripulantes de uma nave de colonos decidem explorar um planeta próximo, com condições aparentemente perfeitas para a vida humana. Se tivessem visto algum dos filmes anteriores da franquia, saberiam que não é a melhor das ideias.

O que se segue não é difícil de adivinhar, exceto por uma coisa: a presença do androide David (Michael Fassbender), de Prometheus, que finalmente aponta para o objetivo de Scott com esta continuação. O problema é que o desenvolvimento das principais questões do longa anterior aqui, além de banalizar as próprias perguntas com respostas pouco inspiradas, ainda tira a aura de mistério e ameaça que cercava a diabólica criatura do título, com a ajuda de um trabalho particularmente porco de efeitos especiais.

A tripulação de humanos pode até ter sido incompetente em outros filmes da franquia, mas nunca como aqui. Desde um capitão (Billy Crudup) que decide mudar o destino de uma missão, que levou uma década para ser organizada, por causa de alguns vagos indícios até uma tripulante (Amy Seimetz) que literalmente entra em estado catatônico ao ver que um de seus colegas está doente, quase ninguém se salva. A exceção é Daniels (Katherine Waterston), falsa protagonista da história (os protagonistas reais são os androides David e Walter) que parece ter ao menos um pouco do senso comum que falta a seus colegas.

Todas aquelas dúvidas sobre nossa origem e a da criatura são amaçarocadas juntas para formar uma narrativa dolorosamente previsível, que nada tem da visão misteriosa e abrangente que parece ter sido desenvolvida inicialmente para a história. Nem mesmo a boa atuação de Fassbender, desta vez como dois personagens semelhantes mas fundamentalmente diferentes, é capaz de salvar o vazio de ideias que é o roteiro do filme. E a reviravolta final é tão esperada que só seria surpreendente mesmo se não houvesse reviravolta alguma.

A julgar pelos últimos quatro filmes da franquia (Prometheus se anunciou como algo diferente, mas pertence ao mesmo universo), é possível dizer que Alien já poderia ter sido morto e enterrado há muito tempo, o que teria preservado a vida de dezenas de astronautas desavidados (para não dizer burros). Em vez disso, ganhamos pelo menos mais duas sequências pela frente. E, se depender da disposição de Scott, não vai acabar tão cedo.

Cotação-2-5

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