A Autópsia | Crítica

A Autópsia começa tão silencioso quanto um necrotério — provavelmente porque se passa quase inteiro dentro de um. Pai (Brian Cox) e filho (Emile Hirsch) trabalham no cadáver de um homem carbonizado. É mais como uma aula do que como um espetáculo grotesco, apesar do estado deteriorado do corpo. Um filho ajudando o pai a cuidar do motor do carro.

Quando a namorada (Ophelia Lovibond) do jovem entra em cena, embora ambos estejam visivelmente apaixonados, é como se ela estivesse interrompendo uma dinâmica muito mais importante. Deixar os pais nunca é uma coisa fácil.

Como se vê por essa sequência de cenas, o filme se esforça logo de início para construir um ambiente de familiaridade em uma atmosfera comumente considerada tétrica e ameaçadora. Este é um dos principais acertos de um terror bastante bom, mas que tem passado quase despercebido pelos cinemas.

Estabelecer a normalidade do lugar, ao invés da bizarrice que a proximidades de cadáveres sempre sugere, além de apontar o caráter honesto e francamente simpático dos personagens principais, é algo essencial para aquilo que o filme pretende fazer. Ou seja, desenvolver aos poucos a quebra dessa harmonia, introduzindo os conflitos internos dos personagens a conta-gotas.

O agente dessa lenta transformação, é claro, é o corpo destruído de uma jovem desconhecida (Olwen Kelly, que, mesmo imóvel, tem a melhor atuação do filme), apelidada de Jane Doe, algo parecido com Joana Ninguém para os americanos. Cada nova descoberta feita sobre e sob a pele de Jane coloca em cheque tudo que a dupla principal conhece por normal e finalmente traz à tona coisas que nunca foram verbalizadas.

O que faz de A Autópsia um filme tão interessante é que não é o ódio que move a narrativa, e sim o amor e o sentimento de dever. É o que torna o filme tão difícil de assistir em alguns momentos. Até mesmo uma certa morte violenta funciona muito mais como prova dessa conexão do que qualquer outra coisa.

A grande questão é que todo esse desenvolvimento pedia um final muito mais ousado e menos convencional do que é entregue. Ao se doar inteiramente à suposta falta de compaixão dos filmes do gênero, o longa também joga na fogueira grande parte do que tinha de mais interessante.

Dentro deste período de aparente renascimento dos filmes de terror que estamos vivendo, A Autópsia, apesar de excelente em alguns momentos, infelizmente não chega a ser um grande destaque e está longe do ranking de obras ótimas como A Bruxa e Corrente do Mal. Ainda assim, é difícil não recomendar um longa que constrói seu suspense com tanto cuidado, mesmo que acabe demonstrando não ter muito estofo para segurar sua estrutura.

Cotação-3-5

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