Logan | Crítica

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Então é essa a sensação de se ver um filme de super-heróis que não é limitado pelas inevitáveis sequências que virão, por restrições típicas de séries cinematográficas infindáveis e padronizadas (como a obrigação de se ter sempre alguns personagens à mão) e pela necessidade de dar ao público toda a diversão sem desafiá-lo em nada.

Desta vez, Hugh Jackman e James Mangold (e possivelmente a Fox) estão cagando e andando para isso, ao menos em parte. O que é ótimo.

Jackman, que praticamente criou a persona do mutante violento e invencível nos cinemas, de fato merecia uma despedida mais digna do que os dois filmes anteriores da saga solo do personagem (o primeiro horrível, o segundo apagado). Em Logan, ele consegue não apenas isso, mas também ajuda a criar um filme que foge ocasionalmente do formato limitador do gênero e que funciona melhor como um faroeste moderno (as referências a Os Brutos Também Amam não são gratuitas) do que como um filme de super-herói.

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Em um futuro não muito distante, Logan vive como motorista de limusine em uma paisagem desértica e desolada nos arredores de Los Angeles. Seus únicos companheiros são um professor Xavier envelhecido e senil (Patrick Stewart, fantástico), cujo cérebro debilitado é considerada uma arma de destruição em massa, e Caliban (Stephen Merchant), cujo dom é ser capaz de encontrar outros mutantes e, portanto, reconhecer quando o perigo se aproxima.

Quando uma jovem com habilidades especiais (Dafne Keen), perseguida por uma implacável unidade militar, aparece pedindo ajuda ao mutante, Logan precisa decidir se sua existência debilitada ainda é capaz de um último ato de entrega.

O pano de fundo da história é melancólico o suficiente para se afastar de praticamente tudo que já se viu no gênero. Com Logan mortalmente doente, mostrado como um homem nas últimas, consumido pela bebida e pela tristeza (“talvez nós sejamos o erro de Deus”), que contempla não apenas o sonho despedaçado de seu mestre, de um mundo em que mutantes e humanos vivam em paz, como é obrigado a assistir ao lento fim do corpo despedaçado de Xavier.

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Aqui, o mutante com a mente mais poderosa do mundo aparece em uma fragilidade devastadora, que, em contraste com o personagem antes genial e  dono de todas as ações que conhecíamos, talvez seja o agregador emocional do que significa a vida decadente dessas pessoas dentro do universo do filme.

Isso é apresentado em grande parte graças às performances dignas de prêmios de Jackman e Stewart, cuja conexão em cena nunca esteve tão forte, e em parte também pelo roteiro, que cria excelente diálogos entre a dupla, refletindo sobre seu passado em comum e sobre temas que sempre estiveram em primeiro plano na franquia.

Claro que o filme também tem seus tropeços, quase todos resquícios de longas de super-heróis mais convencionais. Apesar de pouco importantes para o cerne dramático da trama, os vilões são fracos e previsíveis, a batalha final é bem menos catártica do que poderia ter sido e há a adição desajeitada de um personagem que corporifica uma das principais lutas do personagem, mostrada de maneira quase banal.

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Ainda assim, a despedida de Logan em si é bela o suficiente para superar a maioria dos problemas. Jackman, que se tornou famoso graças ao personagem, ao mesmo tempo em que lhe deu vida acabou ficando muito maior que ele. Para todos os efeitos, Wolverine é mais Hugh Jackman do que Hugh Jackman é Wolverine, e talvez por isso seja tão difícil pensar em substitui-lo na tela grande (e claro que o estúdio se aproveitou esse tempo todo do não envelhecimento de Logan para não ter de fazê-lo).

Esse certamente não é o fim do Wolverine no cinema, mas é o fim do Wolverine de Hugh Jackman, e dificilmente seria possível criar um epitáfio melhor para uma relação tão duradoura e intensa entre criador e criatura. Que descansem em paz.

Cotação-4-5

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