A Grande Muralha | Crítica

Mesmo que você entre na sala de cinema apenas sabendo que A grande muralha é sobre aliens na China antiga e é dirigido por Zhang Yimou (como foi o meu caso), as origens caça-níqueis do filme não lhe passarão despercebidas. Percorrer nos créditos finais a lista dos nomes envolvidos representa uma fonte de maior incredulidade do que a própria premissa, começando pelo próprio Yimou, passando pelo elenco diversificado e atingindo os seis responsáveis pelo roteiro (que incluem Tony Gilroy – certamente contratado por Damon –, Edward Zwick – que iria dirigir o filme, mas foi obrigado a largá-lo por conta da série Nashville -, um roteirista de Saturday Night Live e dois de Narcos e Príncipe da Persia).

Avançando mais um pouco, a surpresa só cresce: a trilha sonora é do cara de Game of Thrones! A montagem é feita por dois americanos, uma parceira do J.J. Abrams e o outro, do Gore Verbinski! Ao menos Yimou conseguiu trazer seu diretor de fotografia (provavelmente os executivos permitiram tendo ciência do obstáculo linguístico da produção), mas junto com ele veio outro americano.

a-grande-muralha-3Sim, sim, A grande muralha é uma geringonça feita com tudo o que 120 milhões permite comprar e atira pra todos os lados sem dar bola para uma única voz artística, mas esse povo todo tem algum talento e mesmo unidos em prol de fazer dinheiro (não à toa o filme é um encontro da China com os Estados Unidos, os dois maiores mercados de bilheteria cinematográfica do mundo), há ainda o suficiente aqui para divertir.

É um filme B (se é que não ficou claro pela premissa) e o fato do título não ser “Aliens na grande muralha” é um triste desperdício. Em todo caso, Matt Damon interpreta um guerreiro habilidoso com o arco e flecha, que junto com seu amigo (Pedro Pascal), tentam encontrar o pó negro (pólvora), uma especiaria só existente no território asiático. Fugindo de um grupo de saqueadores, eles são presos por uma sociedade de guardiões da grande muralha, que revelam que a verdadeira razão para a construção do monumento é impedir a entrada de aliens comedores de carne humana, ressaltando que esta entrada significaria uma proliferação incontrolável que poderia dizimar toda a raça humana. E aí Damon resolve se juntar a eles para salvar a Terra.

a-grande-muralha

Independente do contexto e da narrativa, Yimou tem grande talento para o espetáculo. Assistido numa sala IMAX e em 3D, A grande muralha demonstra que ele é um raro contemporâneo que consegue explorar dignamente estas ferramentas: a cena inicial já o traz descortinando o relevo montanhoso da Ásia através de câmeras aéreas, provavelmente o item que ele mais utilizará ao longo do filme, construindo bem uma escala épica para a obra. Yimou ainda adiciona à contemplação do espetáculo pontuais usos de câmeras lentas que se encaixam bem ao 3D, determinado em permitir que o público vislumbre nitidamente cada segundo de suas sequencias de ação.

Estas, por sinal, evidenciam mais uma vez a imaginação e criatividade do diretor. É maravilhoso ver Yimou repetindo graciosamente sua compulsão por manobras que usam cabos e desavergonhadamente desafiam a gravidade. Editada com agilidade e de forma clara, a ação do filme é variada e engenhosa ao explorar espaços abertos e fechados, com exércitos ou confrontos mais individuais. E para uma narrativa que dá grande importância à pólvora, o som também traz camadas que conferem mais fôlego à ação – em especial, sou muito fã dos tambores sinalizando estratégias de guerra.

a-grande-muralha-2

Apesar da premissa maluca, A Grande Muralha não é um filme B que subverte fórmulas ou atira mais loucuras na tela, conforme a tradição modernista prega. O máximo que faz é incluir toques cômicos, que apesar de sempre agradáveis (uma virtude, ainda assim), são muito tímidos para provocarem risadas (embora ocasionalmente o façam). Ao contrário, o filme é descaradamente cheesy, mas ciente disso a ponto de compactar cenas e arcos dramáticos o máximo possível, sem adicionar firulas que não agregam a nada. Com uma constelação de estrelas do cinema chinês (Andy Lau, por exemplo, é mais popular na China do que Matt Damon é nos Estados Unidos), A Grande Muralha confia no carisma de cada um para prender nossa atenção nesses momentos mais básicos e não falha.

É um produto de estúdio bobo, genérico e raso, mas consciente disso o bastante para ser enxuto e ligeiro (104 minutos, sendo 10 de créditos) e proficiente na ação e no espetáculo. Para os padrões das grandes produções atuais, isso é uma virtude.

Cotação-3-5

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s