Toni Erdmann | Crítica

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Se você for tentar resumir para um amigo a trama de Toni Erdmann, no fim das contas ele pode acabar pensando que o filme é uma típica comédia hollywoodiana. Deve ser a razão porque o remake americano, com Jack Nicholson e Kristen Wiig nos papéis principais, já está até encomendado.

O grosso da narrativa é o seguinte: Winfried Conradi (Peter Simonischek) é um homem que percebe que as coisas em que apoia sua vida pacata começaram a desmoronar à sua volta. Como uma tentativa de restabelecer uma relação importante, talvez sua última oportunidade, ele procura se aproximar da filha Ines (Sandra Hüller), hoje uma executiva de sucesso distante e emocionalmente complicada.

Quando percebe que a filha não se deixará convencer por suas investidas e que sua situação é mais delicada do que parece, Winfried, que em seu tempo livre adora pregar peças em pessoas aleatórios, bota em jogo uma horrenda peruca e uma dentadura podre e passa a abordar Ines usando uma nova identidade.

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O cenário todo parece convidar para personagens caricaturais e humor grosseiro, mas na verdade não é o que acontece. A cineasta Maren Ade (que parece saída do nada, apesar de ter dirigido outros dois filmes anteriormente) é quem impede que isso aconteça. Ela, que também assina o roteiro, excede tanto as expectativas em cada nova cena que o filme acaba por se tornar uma constante descoberta, a ponto de suas 2h35 de duração passarem sem se sentir.

Pois é, Toni Erdmann é um daqueles longas inexplicáveis, com um humor tão fora da quadrado, inesperado e ao mesmo tempo efetivo (de fato, fazia tempo que não ria tanto) que se torna uma surpresa quando você percebe a alta carga dramática que aqueles personagens carregam.

Aqui é essencial destacar as atuações da dupla de protagonistas, cuja química em cena é impressionante. Simonischek está perfeito em uma interpretação extravagante, mas que jamais perde de vista o que Winfried tem de mais vulnerável. Hüller, que ficou com a personagem mais interessante e complexa do filme (e também uma das mais do cinema recente), corresponde incrivelmente, fazendo de Ines e de suas motivações um semi-mistério do início ao fim, que nunca é completamente resolvido nem mesmo a partir das variadas interações que tem com o pai.

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Na maior parte do tempo, Ade utiliza o desconforto do público como uma ferramente para desarmá-lo. Isso acontece em parte pela premissa de que Winfried deve ser retratado como alguém sem limites no que se propõe a fazer, e Ines corresponde à altura. Por outro lado, os personagens constantemente deixam de agir da forma que seria natural esperar deles, e a cineasta faz disso um recurso inteligente o bastante para levar a narrativa a lugares inusitados.

No final, definir uma experiência como Toni Erdmann se torna algo difícil. Com um roteiro tão criativo e acontecimentos por vezes inexplicáveis, a categorização é algo não só impossível como desnecessário. Digamos que Toni Erdmann está na categoria de Toni Erdmann, e que provavelmente será o único filme a ocupar o posto por um bom tempo.

Cotação-5-5

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