Cinquenta Tons Mais Escuros | Crítica

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Ao final de Cinquenta Tons de Cinza (2015), vimos Anastasia Steele (Dakota Johnson), saindo magoada da cobertura de Christian Grey (Jamie Dornan), pois, apesar de ter consentido com o sexo B.D.S.M., ela se choca do quão longe Grey pode chegar no espancamento punitivo/sexual. Ela vai embora achando que aquilo não é pra ela e deixa o príncipe abusador na mão. Logo ele, que nunca havia sido rejeitado por nenhuma submissa.

É claro que no segundo filme (e no livro), ele fica inconformado com esse desprezo e vai atrás de seu objeto de desejo. Eles se encontram na exposição fotográfica de José (Victor Rasuk), aquele que foi parar na friend zone, e que, sem permissão, expõe fotografias gigantes de Ana. Poderia servir como uma metáfora sobre a máxima machista de “já que não posso tê-la, vou expô-la”. Isso se houvesse alguma crítica a respeito da situação absurda, mas não há. José continua de boa, só fazendo cara de filhote abandonado. E ainda tem Grey comprando todas as fotos porque “não quer ninguém babando no que é dele”. Que romântico! Só.que.não.

Ana volta para Grey rapidinho, basta ele prometer que agora não há mais regras nem punições (ela conseguiu!), daí ele compra pra ela um Macbook, um Iphone, a empresa onde ela trabalha e ainda paga 24 mil dólares (que ele ganha a cada quinze minutos como faz questão de contar) pelo seu antigo carro, um fusca. Ana banca a mulher independente que fica brava com tudo isso por cinco minutos, depois aceita tudo o que ele faz e manda.

Neste filme também temos novos personagens; Leila, a ex-submissa (Bella Heathcote) que pirou com a rejeição e, ao invés de ir atrás de Grey, persegue Ana (porque a culpa é sempre da ~vagabunda~, não é mesmo?). Sua trama é resolvida ainda no primeiro ato do filme, com Grey se mostrando um “encantador” de mulheres (no mesmo estilo daqueles encantadores de cobras e cavalos). Há alguma crítica sobre isso? Ana fica revoltada e assustada por três horas, o tempo que leva para andar pela cidade sob a chuva, daí é Grey quem se ajoelha e todo mundo fica “óóó…que dóóó…!

Não gente, não. Não tem que ter dó. Se ele é perturbado porque teve uma mãe viciada e agora quer dominar e punir todas as mulheres parecidas com ela, ele que procure um psiquiatra. Ana não tem que se submeter a ele só porque ele é traumatizado. A não ser que ela seja uma alpinista social, o que está na cara, mas a autora E. L. James nunca admitiu, afinal, quando o cara é bonito não é golpe.

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Outra personagem que dá as caras aqui é Elena Lincoln, interpretada com frieza por Kim Basinger, que não por acaso é ícone do romance erótico dos anos 1980, 9 1/2 Semamas de Amor. Elena já aparece no primeiro livro, mas o primeiro filme sequer a citou, daí quando ela surge é como se todo mundo já soubesse muito bem quem é, ou seja, quem não leu o livro que se vire. Elena iniciou Grey no sadomasoquismo, quando ele ainda era menor de idade, daí que ela é retratada como uma vilã abusadora (o que ela fez é errado mesmo). Elena fez com Grey o que ele faz com as mulheres, mas só ela é punida, claro. Punição aliás, digna de novela mexicana, referência total às cenas mais antológicas de A Usurpadora.

Há também o chefe de Ana, Jack Hyde (Eric Johnson), que atua com tanta sutileza que só falta ter um letreiro de neon piscando sobre sua cabeça dizendo “assediador sexual”, que, claro, também se ferra, e enquanto a recém formada e inexperiente Ana ganha a vaga de editora chefe só por indicar um autor novo (que genial!) na empresa de seu namorado, Hyde planeja sua vingança, na maior sutileza também, nem dá para perceber o quanto ele é maligno.

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Cinquenta Tons Mais Escuros, provavelmente sem intenção, acabou tornando-se uma das melhores comédias dos últimos tempos, é tão brega que não tem como não rir (destaque para a cena do acidente de helicóptero), mas ainda assim bate aquela tristezinha ao perceber que as mulheres ainda saem do cinema suspirando por um sujeito abusador camuflado de príncipe. Anastasia nada mais é do que o exemplo do ideal feminino de “salvar um homem”, algo que na vida real, sabemos que quase nunca acontece.

Cotação-1-5

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