A Qualquer Custo | Crítica

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Desde sua estreia no Festival de Cannes ano passado, A Qualquer Custo vem causando um burburinho discreto. Comendo pelas beiradas, o filme vem conquistando indicações em todas as grandes premiações (inclusive quatro ao Oscar, incluindo melhor filme e roteiro original) e tornou-se o filme independente de maior bilheteria em 2016 nos EUA, além disso, conquistou uma média altíssima nos sites de cotação de críticas. Mesmo assim, ainda há quem estranhe um filme deste gênero numa posição como esta.

A Qualquer Custo (título brasileiro genérico para Hell or High Water) é o que se pode chamar de neo-western, um faroeste moderno, afinal, a trama se passa nos confins do Texas, há polícia, há ladrão, há tiros e perseguições, há até indígena, mas é muito mais do que isso. O roteiro simples e excepcional de Taylor Sheridan (que também escreveu Sicário) mostra com crueza um canto perdido dos EUA, a parcela da sociedade que mais se deu mal com a crise econômica de 2008 e foi esquecida e marginalizada nos anos seguintes, e que talvez seja a razão maior da eleição de Donald Trump agora.

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O povo esquecido é representado aqui na pele dos irmãos Toby e Tanner Howard (interpretados magistralmente pelos até então subestimados Chris Pine e Ben Foster), cuja pobreza vem de gerações, eles vivem sob a sujeira da terra, encobertos pelo país que os ignora. Eles estão perdendo suas terras para o banco, e para pagar a dívida da hipoteca, decidem roubar a mesma instituição que os assola.

A ideia parte de Toby (Pine), que quer deixar uma herança a seus filhos, mas ele é o irmão correto da família, por isso pede a ajuda de Tanner (Foster), o irmão fora-da-lei, que há pouco saiu da prisão. Apesar de Foster parecer se sobressair por razões óbvias, ele é o irmão impulsivo, estourado e divertido, é Pine quem mostra todo seu potencial dramático num personagem muito mais fechado, e portanto, mais difícil.

Na cola dos irmãos, há dois Texas Rangers, o brilhante Jeff Bridges interpretando o policial que está quase se aposentando, que poderia caricaturar o personagem fazendo o típico homem-branco-macho alfa-cowboy, mas suas inúmeras indicações a melhor ator coadjuvante não são à toa, e ele imprime toques sutis de humor e diversas camadas em Marcus Hamilton que fazem nos importar com ele mesmo vendo o desconforto de seu parceiro de origem mexicana/indígena Alberto Parker (o também ótimo Gil Birminghan) com suas piadas racistas. A carga emocional que Bridges imprime ao personagem no clímax do filme é comovente.

Mesmo com todo esse drama, o roteiro ainda consegue encontrar humor, principalmente no jeito texano de ser; homens “de bem” usam chapéus, e garçonetes têm o direito de ser grossas (mas maravilhosas). A direção do irlandês David Mackenzie, com seu olhar estrangeiro, explora as paisagens do sudoeste norte-americano em belíssimos planos abertos que se agregam perfeitamente ao tom lacônico dos personagens, pois o filme também é sobre família, amizade, lealdade, perda e redenção, e a dificuldade destes homens endurecidos pela vida em expressar sentimentos, que estão lá, latentes, mas não encontram palavras.

Em A Qualquer Custo, sentimos o desenrolar trágico da trama desde o princípio, mas mesmo assim torcemos para a dupla de assaltantes sem deixar de gostar dos rangers. O vilão, aqui, é o banco, aquele que fez besteira em 2008 (lembre-se de A Grande Aposta), e seu governo, que gastou bilhões em guerras, mas não ajudou seu povo com aquilo que é essencial e de direito: um teto.

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