Manchester à Beira-Mar | Crítica

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O cineasta Kenneth Lonergan não é nenhum principiante na direção. Ainda assim, seus filmes anteriores, Conte Comigo e Margaret, raramente são lembrados, mesmo que o primeiro tenha sido indicado a dois Oscars (melhor atriz para Laura Linney e roteiro). Margaret, em especial, teve uma estreia desastrosa, devido a múltiplos atrasos de produção, e praticamente não chegou ao grande público.

Apesar de divisivo, o drama, que tem três horas de duração em sua versão estendida, ganhou status de cult nos últimos anos, tendo sido saudado como obra-prima por muitos críticos. Apesar de ainda não ter visto Conte Comigo, posso dizer que Margaret é claramente um precursor de Manchester à Beira-Mar em muitos aspectos, que vão desde o tratamento dado aos personagens até detalhes específicos da trama.

Os dois filmes apresentam personagens que procuram, à sua própria maneira, lidar com grandes traumas em suas vidas. Em Margaret, a tentativa de lidar com a culpa vem à tona pela busca da protagonista para criminalizar um dos envolvidos no caso. Já em Manchester à Beira-Mar, Lee Chandler (Casey Affleck) passou desse ponto há muito tempo, se é que esteve nele em algum momento.

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O longa é sobre alguém que se esforça ativamente para fazer da própria vida um monumento à dor e à lembrança. Isso, como muitas outras coisas ao longo do filme, é mostrado sem necessidade de verbalização. Torna-se perceptível nas fotos que ele leva na cômoda (cujo conteúdo não chega a ser revelado, mas é suficientemente sugerido), na necessidade de ser constantemente punido, nas barreiras autoimpostas para a comunicação com quem quer que seja.

A mão de Lonergan se faz sentir no tom quase leve dado para acontecimentos muitas vezes violentos e emocionalmente extenuantes. Ele demonstra um carinho e cuidado com seus personagens como poucos diretores atuais, sendo capaz de criar relações complexas sem recorrer a vilanizações e nem colocar ninguém sobre um pedestal. Resiste à simplificação até no caso de personagens que, à primeira vista, parecem convidar à caricatura.

O sucesso do filme depende bastante da atuação contida, tristemente apática e frustrante de Affleck, que com justiça arrebatou e garantiu praticamente todos os prêmios da temporada até aqui (tentarei me ater apenas à interpretação, sem comentar as ações do ator longe das câmeras).

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Em menor grau, Lucas Hedges como o sobrinho carismático, por vezes quase tão retraído quanto o tio na tentativa de suprimir seus reais sentimentos, e Michelle Williams, em rápidas aparições como a ex-esposa, também estão ótimo. Ela inclusive tem participação importante em algumas das cenas de maior impacto emocional, o que ajuda a compensar o pouco tempo de tela.

Assim como em Margaret, o peso do filme está sobre as coisas que nunca são ditas. No primeiro caso, a protagonista parece ter medo de verbalizar sua maior preocupação e com isso torná-la mais real.

Em Manchester à Beira-Mar, todos os personagens, incluindo na conta até os mais subjacentes à narrativa, conhecem o calvário do protagonista com detalhes. A falta de necessidade de dizê-lo vem desse conhecimento e vem do tempo que se passou. Embora Lee carregue sempre consigo a consciência do que aconteceu, o filme parece dizer que há coisas para as quais nunca estaremos preparados. Uma verdade tão dolorosa quanto profundamente verdadeira.

Cotação-5-5

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