A Chegada | Crítica

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Sou formada em Letras. Lembro-me de uma vez estar conversando com um estudante de engenharia na universidade e ele, com um certo ar de arrogância, me questionar: “Mas a língua é uma ciência?”. Por essas e outras os cursos de humanas, principalmente os que se referem aos estudos de língua e cultura, estão cada vez mais sucateados, deixados de lado. Mas como bem afirma a protagonista de A Chegada, a linguista Louise Banks: “as línguas são a base das civilizações,  e é a primeira arma sacada num conflito.”

Sem a linguagem não há comunicação, sem comunicação não há interação entre os seres vivos, se não tivéssemos desenvolvido a linguagem, jamais teríamos evoluído ao ponto em que chegamos. E a falta de comunicação geralmente é uma das causas dos conflitos entre os povos, que por sua vez sempre buscam resolvê-los primeiramente através da comunicação verbal.

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E a falta de comunicação entre os povos é o cerne desta ficção científica filosófica dirigida por Denis Villeneuve (Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicário) baseada no conto de Ted Chiang,The Story of your Life“. Dito isto, a ficção científica sobre invasão alienígena aqui é só o pano de fundo para uma discussão filosófica sobre a humanidade, e por isso A Chegada se aproxima muito mais de 2001 – Uma Odisseia no EspaçoContatos Imediatos de 3º Grau ou até mesmo Gravidade, do que das dezenas de filmes de batalhas entre humanos e alienígenas que assistimos tantas vezes.

Após a aterrissagem de doze espaçonaves em diferentes partes do mundo, a linguista Louise Banks, interpretada com sutileza e melancolia por Amy Adams, e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) são convocados pelas forças armadas norte-americanas para tentar traduzir, interpretar – e assim se comunicar – com os aliens, que aparentemente estão “abertos” ao diálogo.

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Não espere ação neste longa, embora tenha militares  e alguns eles sejam retratados como ignorantes impulsivos (um clichê no gênero), além, claro, dos governos estrangeiros intolerantes (China e Rússia, óbvio) que querem partir logo para o ataque (nunca são os norte-americanos, porque afinal eles ~nunca~ querem guerrear), o objetivo do filme é outro, é justamente mostrar que todo conflito deve ser resolvido com comunicação, que este é o maior problema da humanidade: ouvir o outro e tentar compreendê-lo.

Há também o paralelo com a vida de Louise e a questão do tempo, sobre quais mudanças faríamos, e se faríamos alguma, se soubéssemos o que aconteceria em nosso futuro. Esta é a questão filosófica intimista que o filme levanta e que se abre para a grande e emotiva reviravolta do terceiro ato. Afinal, quem nunca passou por um momento difícil, de perda, e se questionou…”E se…?”

Cotação-4-5

2 comments

  1. Assisti ontem ao filme e concordo com as suas comparações.
    Quero acrescentar algumas; por exemplo ao referir-se ao concepto de tempo não linear, achei semelhanças com o segundo episódio de Star Trek – Deep Space Nine, onde Sisko encontra os “profetas” do “templo celestial”, ou seja os seres que vivem no interior da fenda espacial que comunica com o Quadrante Delta da galaxia, cuja apreciação do tempo não é lineal.
    Gostei do filme porque mostra seres muito alienígenas tentando se comunicar com humanos, tema que já foi tratado por Poul Anderson em “We Claim These Stars”.
    Não se citam este tipo de seres alienígenas demais em Star Trek (exceção os tolianos) nem em Star Wars.
    Em Resumo: Este filme é para gente muito nerd, que entende muito de ficção científica… entre os quais felizmente me encontro.
    parabéns pelo post.
    Abraço.
    Vida Longa e Próspera!

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    • Obrigada pelo comentário, Martin! O legal deste filme é que ele é não só para “nerds” de ficção científica, mas também para pessoas sensíveis que compreenderão a mensagem de que o mundo precisa se comunicar melhor.
      p.s.: Também adoro Star Trek, se puder, leia minha crítica de Sem Fronteiras😉

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