Horizonte Profundo – Desastre no Golfo | Crítica

Deepwater Horizon' film - 2016Imagino que as grandes tragédias estejam no imaginário social como um medo coletivo meio oculto, que só escapa para a realidade quando elas de fato ocorrem. Ou quando, em uma sala de cinema, temos a oportunidade de sentir pena da humanidade e dos poucos heróis que tentam sobreviver em um ambiente calamitoso.

Não é preciso muito para que esse sentimento fuja por uma pequena fissura do nosso consciente, como se já fôssemos programados com antecedência para o fim doloroso de nossa espécie. Basta pensar no experimento protagonizado por um ainda jovem Orson Welles, em 1938, quando transmitiu na rádio uma versão de Guerra dos Mundos em formato jornalístico, fazendo acreditar que a invasão alienígena estava acontecendo naquele exato momento. Muitos ouvintes que perderam a explicação inicial do programa acreditaram que ETs estavam de fato entre nós.

Tudo isso considerado, não é surpresa que os “disaster movies”, como ficaram conhecidos, tenham feito considerável sucesso, principalmente a partir dos anos 90, com o principal ícone do gênero, Independence Day. Hollywood, no entanto, tem encontrado dificuldades para acertar dentro desse filão nos últimos anos.

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Não sou nenhum especialista, mas chutaria que um dos problemas é que cineastas como Roland Emmerich, “grande” diretor do gênero, têm apostado cada vez mais na pirotecnia e menos nos dramas humanos gerados pela catástrofe. Essa é a principal razão porque Horizonte Profundo, drama baseado em fatos reais ocorridos em 2010 nos EUA, se assemelha a um sopro de ar fresco, ainda que não faça nada de mais. A questão é que seus personagens simplesmente soam como pessoas reais.

O longa claramente empreende um grande esforço nesse sentido. Leva cerca de uma hora estabelecendo relações extremamente naturais entre os funcionários da plataforma de petróleo, onde a tragédia é mais do que anunciada. Sem medo de entediar seu público (o que pode ocorrer, já que os espectadores têm demonstrado cada vez menos paciência para esse tipo de coisa em filmes de ação), o longa joga toda a tragédia para sua parte final, onde tudo vai quase literalmente para o inferno.

Há um grande ganho nessa abordagem, pois ela nos faz sentir preocupação real por pessoas como Mike Williams (Mark Wahlberg), Jimmy Harrell (Kurt Russell), Andrea Fleytas (Gina Rodriguez) e Caleb Holloway (Dylan O’Brien), que nunca se tornam super-heróis ou coisas do tipo e agem sim como o que são: trabalhadores comuns presos em uma situação extrema.

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Até mesmo quando as imensas explosões estão acontecendo e o fogo cai do céu como se fosse o dia do juízo final, o diretor Peter Berg jamais perde de vista seus personagens ou os esquece em favor do espetáculo. Finalmente alguns deles abraçam suas famílias e nós podemos sentir sua dor como algo real e próximo de nós.

Esse fator sozinho não foi capaz de atrair muito público para o filme, até porque a divulgação foi um pouco mequetrefe e porque parece haver uma espécie de saturação com filmes de destruição em massa (talvez a situação global seja o máximo com que as pessoas conseguem lidar no momento).

A fraca bilheteria, porém, não faz o filme deixar de ser bastante bom. E o é por fazer o feijão com arroz de que todos os outros deveriam saber. Afinal, encontrar os dramas individuais em meio a fenômenos globais e populacionais cada vez maiores deve ser um dos grandes desafios de nossos tempos e nós aparentemente não sabemos lidar com ele.

Cotação-4-5

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