O Nascimento de Uma Nação | Crítica

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Pouca gente conhece a história de Nat Turner, um escravo negro do estado americano da Virginia que, no século 19, organizou uma revolta que terminou com a morte de dezenas de brancos e, é claro, de centenas de negros em retaliação.

Ao contar essa história, O Nascimento de Uma Nação (nome dado de forma irônica, opondo-se ao clássico racista de 1915) se difere logo de cara de outros filmes de escravidão por não ser apenas uma narrativa de maus tratos e sofrimento, mas também uma trama de vingança. E não a vingança megaestilizada de um Tarantino, em que ser “cool” precisa sempre fazer parte da equação, mas em batalhas brutais e secas por uma liberdade que, ainda que limitada e reduzida, é ainda assim essencial para quem nunca a teve.

Apesar de maniqueísta (a escravidão e o nazismo geralmente são temas incapazes de fugir dessa classificação, até porque eram-no de fato), o longa consegue colocar algumas nuances em personagens centrais. Turner (Nate Parker), por exemplo, trabalha por algum tempo como um pregador que ajuda os senhores a manterem seus escravos na linha, agindo, como ele mesmo sabe, de forma contrária aos interesses de sua gente. O contraste que há entre a fé e a sanguinolência de algumas mortes causadas por ele também reforça a ambiguidade do personagem.

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Por outro lado, seu senhor Samuel Turner (Armie Hammer), ainda que seja claramente um covarde que coloca o interesse por dinheiro e pelo próprio bem-estar acima de suas convicções, não é mostrado de forma totalmente antipática. Graças à sua criação, percebe-se que também não suporta ver o sofrimento dos escravos causado por seus companheiros brancos e, dentro do ambiente de extrema brutalidade em que está inserido, trata seus próprios escravos de forma bem mais humana.

Como precisa passar a agir como os outros por interesses financeiros, passa a beber com muito mais frequência. Tudo isso não significa que a escravidão seja menos horrível em sua propriedade, o que também acabamos por descobrir.

O filme é corajoso na forma como aborda sua narrativa, sem poupar o espectador de detalhes sórdidos ou de presenciar os efeitos devastadores da violência. Por vezes, é muito mais gráfico que filmes como 12 Anos de Escravidão, embora não mais efetivo.

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Parker é um diretor de primeira viagem, e isso fica claro em alguns momentos do filme. Além de uma edição truncada e confusa em diversos pontos, há sucessivas tentativas de soar artístico que soam pretensiosas e até bregas, falhando miseravelmente como as metáforas que tentam ser.

Parker está excelente no papel principal, mas há outras escalações de elenco equivocadas. O garoto que faz a versão jovem de Nat talvez seja a mais fácil de reconhecer, pois, em parceria com a péssima montagem e uma certa pieguice, prejudica o início do longa de forma irremediável.

As graves acusações que cercam o diretor acabaram por minar o impacto do longa, o que é até compreensível, já que a transformação pela qual o personagem passa tem o estupro, tema que está no centro da polêmica na vida real, como uma das principais motivações. Apesar disso, e embora O Nascimento de Uma Nação não seja de fato um grande filme, vale a pena dar ao menos uma chance a ele, ainda que o convite não se estenda necessariamente à figura de seu realizador.

Cotação-3-5

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