Kubo e as Cordas Mágicas | Crítica

kubo_e_as_cordas_magicasTocando violão, uma mulher de longos cabelos negros enfrenta as ondas gigantescas e chega pelo mar carregando uma manta. Dentro dela, aninha-se um minúsculo bebê. Muitos anos depois, a mulher vive em uma caverna, em frente à mesma praia à qual chegou naquele dia. Toda manhã, ela observa o nascer do sol ao lado do filho. Nas tardes o jovem sai para o vilarejo mais próximo, onde conta histórias fantásticas em troca de moedas. A mulher permanece e, aos poucos, vai se esquecendo do passado e de quem é.

A magnífica sequência que dá início a Kubo e as Cordas Mágicas, na qual tradição, lirismo, beleza e melancolia se encontram de forma praticamente perfeita, deixa claro que algo extraordinário está para se desenrolar.

O filme usa a tradição imagética e temática japonesa para narrar um conto aparentemente simples sobre família, memória, amor e sacrifício. Diferentemente de outros longas americanos que pilham aspectos de outras culturas para criar produtos essencialmente ocidentais, no entanto, Kubo nunca se parece com uma cópia ou soa desrespeitoso em sua homenagem.

kubo_e_as_cordas_magicas2Pelo contrário, traz em seu centro aspectos fundamentais da cultura japonesa, aliando-os a uma narrativa comovente e por vezes dolorida, que não poupa seu público de sofrer junto com o protagonista, assim como de acompanhar suas pequenas alegrias.

Após deixar a segurança do lar materno, o jovem protagonista se vê perdido em um mundo desconhecido e cheio de mistérios. Ao lado do indomável, amoroso e por vezes irritante Kubo (Art Parkinson), estão sua companheira Macaca (Charlize Theron) e o guerreiro Besouro (Matthew McConaughey, um homem “metamorfoseado num inseto monstruoso”, já diria Kafka), que têm a missão de auxiliá-lo em sua busca pelo elmo dourado, única proteção possível contra as tias (Rooney Mara) e o avô (Ralph Fiennes) corrompidos, que querem matá-lo.

Visualmente, o filme é o mais bonito que a pequena  notável produtora Laika fez até hoje. Sem exagero nenhum, é também uma das mais belas animações já produzidas. Ao longo dos sete anos que separam a estreia do excelente Coraline dos dias de hoje, a produtora aprimorou sua técnica até chegar a um ponto muito próximo da perfeição.

kubo_e_as_cordas_magicas3O que impede o filme de ser inteiro perfeito como seus primeiros quinze minutos são as pequenas arestas do roteiro que ficaram por aparar. O avô de Kubo, por exemplo, é um vilão fraco, com motivações pouco definidas, que o transformam em tudo o que o restante do filme não é: uma figura maniqueísta e pouco complexa.

Fora os pequenos problemas, porém, o longa também tem algo a dizer sobre a memória, tema já tão discutido e problematizado, mas que, a julgar por aqui, ainda tem muito o que render. Se houvesse uma coisa simplista como uma moral da história para uma narrativa tão rica e diversificada quanto a de Kubo e as Cordas Mágicas, ela certamente teria algo a ver com aquilo em que nossas lembranças nos transformam.

De certa forma, as lembranças nos fazem quem somos. Para o bem ou para o mal. Perdê-las significa deixar de ser. Determinada cena mostra um personagem tendo novas memórias “implantadas”, que devem fazê-lo se tornar uma pessoa diferente. É difícil saber se era essa a intenção (muito provavelmente não), mas a falta de naturalidade do processo aqui é muito mais assustadora do que se poderia esperar. Um alguém cuja memória se baseia em lembranças inventadas é de fato uma pessoa completa? Que haja espaço para um questionamento desses em uma animação infantil é só mais um sinal do absoluto triunfo da Laika.

Cotação-4-5

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