Um Espião e Meio | Crítica

um_espiao_e_meioJerry Lewis nunca foi um comediante sutil ou contido. Suas performances sempre se apoiaram fortemente em caretas e gestos, e seus personagens eram muito mais caricatos do que complexos. Essas características ficam bastante evidentes, por exemplo, em um de seus filmes mais conhecidos: O Professor Aloprado (falo, é claro, da versão original de 1963, e não do remake com Eddie Murphy).

Mesmo esse filme, no entanto, tem um detalhe que o diferencia do grande rol de comédias esquecíveis já produzidas, e coloca Lewis em destaque. O momento em questão acontece quase no final. No clímax, quando a dupla personalidade do protagonista esbarra contra uma impossibilidade muito mais forte que ele, o humor é subitamente interrompido. O professor vivido por Lewis faz um discurso pesado e melancólico sobre bullying e o eventual desejo de suas vítimas de se tornarem outras pessoas.

Foi com uma certa surpresa que reconheci em Um Espião e Meio algumas semelhanças com esse clássico da comédia. Para começar, um dos protagonistas, Robbie Wheirdicht (Dwayne Johnson), é uma vítima de agressões covardes na escola que, quando adulto, passa por uma transformação quase tão radical quanto a do personagem de Lewis no outro filme – talvez até mais, pois foi feita literalmente “no muque”.

Já sua contraparte no filme, Calvin Joyner (Kevin Hart), dá vazão a um grande trauma americano: a impossibilidade de corresponder na vida adulta às expectativas criadas no colégio. Isso leva a um dos melhores momentos do filme, quando Joyner, hoje um contador de uma empresa irrelevante, incapaz de subir na carreira, reencontra a galeria de troféus e conquistas de sua adolescência.

um_espiao_e_meio2Este pequeno momento é bem-sucedido porque o roteiro e a direção entendem que interrompê-lo com uma piada poderia prejudicar a relação que começa a se formar ali entre o público e o personagem. É o mesmo que acontece, por exemplo, quando Wheirdicht, apesar de seu tamanho e força, não consegue reagir a uma nova demonstração de bullying.

Essas pequenas pausas não prejudicam o andamento cômico do filme, são respiros até muito bem-vindos. E mesmo quando a graça escorrega, Hart e “The Rock” têm carisma suficiente para segurar a barra. Na verdade, o público está uito mais ancorado neles do que em piadas soltas.

A tal necessidade frenética de satisfazer sempre o espectador de cinema, porém, dita que o humor não pode parar e que uma comédia só é uma boa comédia se for hilária 100% do tempo (o que, aliás, imagino que nenhuma tenha sido capaz de fazer até hoje). Essa é a razão porque, quando se aproxima do final, o filme se nega a dar uma conclusão à trajetória de seus protagonistas para cair novamente na piada fácil e na galhofa.

Portanto, quando Joyner sobe ao palco em circunstâncias muito semelhantes às do professor aloprado de 1963, ficam claras duas coisas: que Um Espião e Meio perde uma chance de não ser apenas mais uma comédia esquecível entre tantas outras, e que o diretor Rawson Marshall Thurber não é nenhum Jerry Lewis – apesar de bem conhecido, um comediante até um tanto subestimado pela história do cinema.

um_espiao_e_meio3Esse tipo de talento inato para entender o cinema é algo que tem muito pouco a ver com tempo e espaço. É possível que, se iniciasse hoje sua carreira, Lewis faria tanto sucesso quanto fez nas décadas de 50 e 60. E é certo que, se fosse diretor nas décadas de 50 e 60, Rawson Marshall Thurber e seu Um Espião e Meio seriam tão medíocres quanto são atualmente, apesar da surpreendente química de sua dupla central.

Cotação-2-5

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