O Bom Gigante Amigo | Crítica

o_bom_gigante_amigoNas últimas décadas, Steven Spielberg tem estado distante dos gêneros de filmes que, no início da carreira, transformaram seu nome em um dos mais prestigiados dentro de Hollywood. Curiosamente, suspense, ficção científica, aventura e fantasia não estão entre os gêneros considerados “sérios” pelo cânone cinematográfico tradicional. Não é à toa, aliás, que Spielberg só levou suas duas estatuetas de diretor por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan,  produções “mais dignas” sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, temas que costumam ser melhor aceitos pelos membros da Academia.

Estes não foram os filmes que fizeram do cineasta quem ele é. Quando se pensa em Spielberg, o que vem à mente é o dedo de uma criança tocando o de um extraterreste, um tubarão mastigando a proa de um barco, um jovem Harrison Ford fugindo de uma pedra gigantesca, uma nave espacial brilhante pousando sobre a terra, dinossauros recriados digitalmente à perfeição correndo por cima de um imenso gramado.

Os últimos três filmes dirigidos pelo cineasta, no entanto, foram os dramas históricos Cavalo de Guerra, Lincoln e Ponte de Espiões. Coincidentemente ou não, todos abordando momentos cruciais da história americana e, é claro, devidamente indicados na categoria máxima do Oscar. Agora, 34 anos depois de ET: O Extraterrestre, ele finalmente lança uma fantasia infantil, desta vez baseada em uma obra famosa do escritor Roald Dahl.

o_bom_gigante_amigo3A primeira hora de O Bom Gigante Amigo deixa claro por que o diretor é considerado um verdadeiro mago de Hollywood. Poucos cineastas hoje em dia seriam capazes de dar o pontapé inicial em um filme infantil de maneira tão brilhantemente doce e ingênua como Spielberg aqui. Do primeiro encontro mostrado de forma surpreendentemente natural entre Sophie (Ruby Barnhill) e o gigante (Mark Rylance, em performance de captura de movimento), também conhecido como BFG (Big Fucking Friendly Giant), até o lento desenvolvimento da amizade entre eles, tudo é encantador.

Essa relação, aliás, é um ponto alto, graças à performance nada manipuladora da pequena Ruby e ao gigantesco (sem trocadilhos) carisma de Rylance. Nessa primeira metade, o filme começa a construir uma relação fascinante entre ambos, em que medo e coragem são mostrados como conceitos extremamente relativos quando em contato com as condições reais da dupla. O visual é magnífico, desde o realismo (que não deixa de lado um quê de fantástico) da criação dos gigantes até as luzes do mundo de BFG, o qual, apesar de pouco explorado pelo roteiro, compensa com uma estética ao mesmo tempo misteriosa e hipnotizante.

O problema com O Bom Gigante Amigo é que há dois filmes aqui. Roald Dahl, autor do livro original, tinha uma certa queda pelo cinismo e a subversão, quase o exato oposto do cinema de Spielberg. É por isso que na última parte do filme, quando piadas com a rainha da Inglaterra peidando preenchem a tela e somos forçados a torcer pela vitória do Exército em um filme que havia sido até então basicamente um conto de fadas sobre a amizade, fica claro que algo está errado.

o_bom_gigante_amigo2Spielberg não tem o melhor dos retrospectos para este tipo de humor e a atmosfera de ingenuidade construída antes aqui faz com que tudo pareça incrivelmente idiota. O conflito criado desde o início entre BFG e seus compatriotas de dimensões ainda mais avantajadas é deixado de lado para dar lugar a um terço final que é tudo menos excitante ou bem feito. Além de não concluir coisa alguma, leva a um encerramento que suga o cineasta de volta ao sentimentalismo exagerado, desta vez sem nem mesmo uma boa estrutura por trás que o justifique.

Tudo isso não chega a desfazer o que Spielberg alcançou na primeira hora de filme, mas certamente dilui bastante seu efeito. É frustrante que, estando de volta ao que sabe fazer de melhor, o diretor seja sabotado justamente pelo apego a uma outra visão conflitante, por melhor que ela seja (e, se tratando de Dahl, autor de A Fantástica Fábrica de Chocolates e Matilda, sabemos que ela provavelmente também é muito boa).

Cotação-3-5o_bom_gigante_amigo_posterO Bom Gigante Amigo (The BFG)

Gênero: Aventura, Família, Fantasia

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Melissa Mathison, baseado no livro de Roald Dahl

Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Rafe Spall, Bill Hader, Ólafur Darri Ólafsson, Adam Godley, Michael Adamthwaite, Daniel Bacon, Jonathan Holmes, Chris Gibbs, Paul Moniz de Sa, Marylin Norry

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