CL 5 Anos – Viva o Cinema Brasileiro | Cabra Marcado Para Morrer

cabra_marcado_para_morrerNosso maior documentarista iniciou sua carreira no cinema documental revivendo um de seus primeiros “fracassos” como diretor de ficção. Hoje não há muita gente que conheça a fundo os primeiros filmes ficcionais de Eduardo Coutinho, possivelmente porque seu sucesso posterior com filmes “mais reais” ofuscou o início de sua carreira.

Em 1964, Coutinho filmava seu primeiro longa-metragem, Cabra Marcado para Morrer, que contaria a história da vida de João Pedro Teixeira, líder camponês paraibano assassinado dois anos antes. Para viver os personagens, o cineasta convidou moradores locais (com algumas poucas exceções) intimamente envolvidos com a luta camponesa na época. Entre eles, a viúva de Teixeira, Elizabeth, interpretaria a si mesma.

As filmagens tiveram início no engenho da Galileia, em Pernambuco, onde grande parte dos fatos aconteceu, e avançaram consideravelmente até esbarrarem em um obstáculo intransponível: o golpe militar de 1964. Desconfiados das gravações, os militares suspeitaram de uma “intervenção cubana” na região e prenderam parte da equipe e dos atores. Outros, entre eles Coutinho, conseguiram fugir.

Cerca de 17 anos depois, após dirigir alguns filmes de ficção e trabalhar por quase uma década como jornalista no Globo Repórter, Coutinho resolveu retomar por conta própria o caso, voltando ao engenho da Galileia para entrevistar os principais envolvidos na produção inicial. Ao projetar as cenas gravadas para o filme e mostrar fotos de bastidores da gravação, ele reaviva as memórias dos habitantes, descobre o impacto que as filmagens tiveram sobre eles e reencontra a todos em caminhos muito diversos.

cabra_marcado_para_morrer2Uma das características mais notáveis do filme é o fato de Coutinho ainda não ter desenvolvido completamente o estilo documental que o tornaria conhecido. Em certo ponto do filme, um homem lhe pergunta se ele é da Globo. “É reportagem. É tipo TV, mas é cinema”, ele responde. O uso de uma narração jornalística ao fundo (feita pelo poeta Ferreira Gullar), porém, ainda deixa transparecer muito de seu trabalho como jornalista televisivo.

Por outro lado, já há muito de pessoal em seu estilo de direção. Coutinho escolhe deixar em evidência logo de início seu trabalho como documentarista e diretor, mostrando muitas cenas de preparação, suas andanças por lugares em busca dos entrevistados e conversas informais antes que se iniciem as entrevistas per se. Aparece à frente das câmeras mais do que o comum em sua filmografia, assumindo também a posição de personagem. Parece já ter uma noção de que o que acontece em volta da entrevista muitas vezes diz mais sobre aquelas pessoas do que aquilo que elas escolhem falar em frente às câmeras.

Apesar da narração, Coutinho também evita ao máximo levantar juízos de valor sobre as falas dos personagens, uma opção que se tornaria ainda mais radical em filmes subsequentes, como Edifício Master e Jogo de Cena (este último talvez seu experimento mais radical e subversivo nesse sentido). Muitos dos entrevistados, relembrando os acontecimentos quase duas décadas depois, afirmam ter dito coisas impensáveis a militares, peitado a polícia, agido de forma sempre honrada e heroica.

Fica no ar em muitos momentos a dúvida sobre a veracidade dos relatos. As memórias tratam de se reinventar, adaptam-se a novas realidades, moldam-se à visão otimista que cada um tem de si mesmo. Coutinho entende isso e deixa a cargo do público captar ou imaginar essas pequenas incongruências.

cabra_marcado_para_morrer3Para quem conhece seus filmes posteriores, Coutinho aparece aqui como um entrevistador mais inseguro, mas já dono de um estilo carinhoso, porém incisivo, sempre atento às falas daqueles que procura retratar.

Se no início ele tenta reconstruir os acontecimentos pelo ponto de vista de personagens periféricos, é quando reencontra a própria Elizabeth Teixeira que Coutinho chega à grande personagem do filme (possivelmente até de sua carreira como cineasta). Escondida por muitos anos na minúscula cidade de São Rafael, no Rio Grande do Norte, a viúva viveu esse tempo todo afastada dos os filhos (ao todo, eram 12), precisando ocultar sua identidade de vizinhos por medo de ser encontrada pelos militares.

De fala muito simples e meiga, Elizabeth aparece primeiro intimidada pela figura de um filho jornalista, de fala forte e que praticamente a força a elogiar o governo do presidente Figueiredo. De discursos prontos e pontos de vista engessados, ele gosta de fazer proclamações. Percebe-se o desconforto de Coutinho com o homem (e o diretor faz questão de deixá-lo claro). O cineasta não tem paciência ou interesse por discursos forjados, pouco naturais.

Em sua saga para reconstruir a história dessa família, dizimada e dividida por uma tragédia, Coutinho vai atrás dos outros filhos de Elizabeth espalhados pelo Brasil. Cada um tem uma visão diferente da infância e da separação. Alguns dizem não se lembrar. Outros guardam marcas profundas, apesar de negarem ressentimentos. Um deles reconstruiu o túmulo do pai, que havia sido quebrado por vândalos. Outra diz não sentir mágoas, mas chora ao lembrar que foi a única entregue para viver longe da família.

cabra_marcado_para_morrer4No centro, está sempre Elizabeth, cujo perfil vai se delineando melhor conforme percebemos que foi ela quem assumiu o lugar do marido na luta camponesa. Ela vai se sentindo mais e mais à vontade em frente à câmera e sua fala vai ganhando interesse, até finalmente desembocar naturalmente em um discurso político que soa profundamente verdadeiro, solto da inibição inicial que a fez repetir os valores do filho. Esse lento desenvolvimento, sem empurrar ou colocar o entrevistado contra a parede para que diga o que se quer ouvir, o grande legado de Coutinho, nunca ficou tão evidente quanto aqui, em seu melhor filme.

Leia a seguir a íntegra do discurso de dona Elizabeth:

“A luta é que não pára. A mesma necessidade de 64 está plantada, ela não fugiu um milímetro. A mesma necessidade está na fisionomia do operário, do homem do campo e do estudante. A luta que não pode parar. Enquanto se diz que tem fome e salário de miséria, o povo tem que lutar. Quem é que não luta por melhores dias de vida? Tem que lutar. Quem tem condições, quem tem sua boa vida que fique aí. Eu, como venho sofrendo, eu tenho que lutar e tenho peito de dizer: é preciso mudar o regime, é preciso que o povo lute. Enquanto tiver esse regimezinho, essa democraciazinha aí… democracia sem liberdade, democracia com salário de miséria, de fome, democracia sem o filho do operário e do camponês ter direito de estudar, ah… não pode, ninguém pode.”

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