CL 5 Anos – Viva o Cinema Brasileiro | Cidade de Deus

 

cidade-de-deus-todosReza a lenda que, lá pelos idos de 2004, quando Cidade de Deus ganhava fama mundial ao entrar no circuito de premiações internacionais, Steven Spielberg quis saber como Fernando Meirelles filmou a cena de abertura do filme. Que apetrecho tecnológico o diretor teria usado para realizar a perseguição à galinha? Bem humorado, Meirelles contou a verdade: simplesmente amarrou a câmera numa simples vassoura com fita crepe e gravou correndo atrás da galinha mesmo.

Essa história mostra o tipo de choque cultural que o fenômeno que foi esse filme causou. Adaptação do livro homônimo de Paulo Lins, Cidade de Deus é hoje um clássico tão grande que foi literalmente o responsável por desencadear todo um movimento no cinema nacional nos anos 2000, quase inaugurando um gênero, sendo inequivocadamente um marco na história e um dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos.

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Também foi responsável por escancarar diversos tipos de diferenças. Não apenas as diferenças entre a realidade da indústria cinematográfica brasileira e a americana, como ilustra a história do primeiro parágrafo, mas sobretudo o abismo social existente nos nossos tempos. Exemplo disso foi o contraste de todo aquele glamour das premiações e a condição de vida de todo o elenco. É de conhecimento geral que foi realizado um trabalho de oficina entre pessoas da comunidade ao invés de simplesmente contratar atores já formados profissionalmente para integrar o filme.

E que diferença isso fez. Não apenas imprimiu um realismo único na tela, mas também mostrou o excelente trabalho de preparação realizado. Cada atuação brilha ao seu próprio momento, com destaque óbvio para o icônico Zé Pequeno de Leandro Firmino (e também sua versão infantil, do então pequeno e impressionante Douglas Silva), capaz de exalar medo e encarnar a crueldade humana como poucos vilões da história do Cinema.

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E o que dizer da tragédia do Mané Galinha de Seu Jorge? Do carisma do Bené de Phellipe Haagensen? Da brutalidade aterradora da cena em que Zé Pequeno tortura crianças? Da reflexão perplexa que seu desfecho deixa no espectador? Ou mesmo do humor nervoso que o filme, reconhecendo o imenso peso de seu conteúdo, lança aqui e ali para aliviar a tensão que de outra forma seria insuportável? Cidade de Deus é um filme tão rico e poderoso que é quase impossível observar todas as nuances do universo que apresenta numa só vista.

A direção ágil de Meirelles e a fantástica montagem imprimem um ritmo frenético para a narrativa, que mal faz o espectador notar o passar dos anos pela Cidade de Deus. Desde a revisitação da mesma cena (“Dadinho é o caralho!”) por nada menos que três perspectivas diferentes até o sensacional travelling circular que leva ao flashback da história, fazendo o protagonista Buscapé voltar à infância diante dos nossos olhos enquanto a fotografia assume os tons quentes característicos dos anos 70, quando a falta de urbanização daquele lugar fazia a terra dominar a paisagem que viria a ser tomada pelo asfalto.

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Mas no fim o que impressiona mesmo é o retrato visceral da realidade da favela esquecida pelo resto da cidade. Mesmo que exista uma discussão sobre o legado deixado pelo filme, muitos falam em glamourização da pobreza/violência através dos muitos exemplares do chamado “filme de favela” que Cidade de Deus originou nos anos seguintes, seu tamanho e valor dentro da filmografia nacional é inegável.

Depois deste clássico o Brasil, para o bem ou para o mal, enxergou um pouquinho mais o outro Brasil dentro dele. E esse, afinal, foi um choque bem maior para nós do que foi para Spielberg ter descoberto que às vezes tudo o que basta é uma simples vassoura.

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