CL 5 Anos – Viva o Cinema Brasileiro | Tropa de Elite

Tropa de Elite

Poucas coisas são indiscutíveis nessa vida. Ainda que eu não queira cair na armadilha de criar verdades absolutas, posso citar, sem medo de errar, alguns casos que se enquadram nessa categoria, como: o correto é biscoito e não bolacha, a DC é melhor que a Marvel e a importância de Tropa de Elite para o cinema nacional.

Claro que para que um filme se torne uma obra relevante a esse ponto é necessário que ele extrapole as telas e se torne um elemento de construção de identidade de um povo. Ou, devaneios de grandeza à parte, visto pelo prisma inverso, que a construção de identidade de um filme se dê pelo que ele absorve do seu povo.

Como é o caso de Tropa de Elite, que virou fenômeno cultural antes de ganhar as salas de cinema, justamente por uma característica tipicamente brasileira. A cópia pirata que vazou foi vista por uma legião de adeptos do DVD do camelô e seria justo dizer que o boca a boca do gueto foi quem impulsionou a ereção meteórica do filme, atingindo níveis estratosféricos de hype a ponto de trazer da senda dos mortos a banda Tihuana, autora do hit musical que embala ozômi de preto no filme. Estima-se que cerca de 11 milhões de brasileiros pouco preocupados com com o ganha pão dos envolvidos com a sétima arte viram o filme por vias não oficiais. Só isso já é medida para se calcular relevância.

Tropa de Elite

Some-se a isso o show de bordões imortalizados por todo tipo de escroque facilmente identificado com elementos muito presentes no imaginário popular, dentre eles o mais clássico, o policial corrupto.

E claro, isso nos leva ao coração de Tropa de Elite, que obviamente é Wagner Moura e sua construção endiabrada do Capitão Nascimento, policial que quer largar a vida no BOPE para se dedicar à esposa e ao filho que vai nascer. Acontece que no caminho ele tortura e mata bandidos, trata mal a mulher e serve de mentor carrasco para uma turma de aspirantes. Todos comportamentos muito condenáveis moralmente, mas que aqui são perdoados porque ele carrega o greencard de ser um policial incorruptível. E aí ele se torna herói.

A despeito de qualquer método que se baseie em fatos concretos para elaborar uma estatística verdadeiramente respeitável e confiável, uso apenas a observação despretensiosa para chegar à humilde conclusão de que o Capitão Nascimento tornou-se o grande representante do povo brasileiro desde Macunaíma.

Tropa de Elite

Talvez não tenha sido essa a intenção de José Padilha (arrisco dizer que não foi), mas Nascimento virou, tal qual o índio indolente de Mário de Andrade, uma sátira que diz mais sobre o público que o abraça como um justiceiro do que o personagem e seu drama pessoal. Nessas horas sempre me vem à mente uma citação Nolaniana, que seguindo os preceitos básicos da síndrome de vira-lata parafraseio: “Nascimento não é o herói que o Brasil precisa, e sim o herói que o Brasil merece”. A comparação com Batman é justa, afinal ambos são frutos do sistema, vestem preto e usam métodos pouco humanitários para resolver os problemas de violência de suas respectivas cidades.

Mas a discussão acadêmica (e que foi a polêmica no festival de Berlim de 2008) que faz brilhar os olhinhos e dá aquele comichão nos doutores teóricos de películas é se Tropa de Elite é ou não um filme fascista. Cada um que faça sua interpretação. Aí vale esmiuçar as cenas de embate filosófico como a que acontece em plena sala de aula em uma discussão sobre o papel da polícia militar, ou as alegações sobre os usuários que financiam o tráfico. Tudo acaba ficando meio preto e branco, como um bom filme de ação dos anos 90 que busca a catarse nos tiros em cima dos bandidos e na correria para saber onde é que está a porra do Baiano.

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