CL 5 Anos – Viva o Cinema Brasileiro | As Melhores Coisas do Mundo

A adolescência é uma das fases mais importantes/difíceis da vida e é constantemente retratada no cinema. É um período de descobertas, formação de caráter. Particularmente o tema sempre me atrai, e não à toa escolhi essa pequena pérola (fiquei entre ele e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) da diretora Laís Bodansky, a mesma do cultuado Bicho de Sete Cabeças (2001) e de Chega de Saudade (2008), para escrever no nosso especial. As Melhores Coisas do Mundo (2010) consegue falar sobre diversos temas como homossexualidade, bullying e depressão com muita delicadeza.

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O filme conta a história de Mano (Francisco Miguez), um adolescente de 15 anos. Seu núcleo familiar é composto por sua mãe (Denise Fraga, ótima aqui), seu irmão Pedro (Fiuk), de 17 anos, e seu pai (Zé Carlos Machado). A vida de Mano, que era a de um adolescente-classe-média-padrão, tem uma brusca mudança quando ao chegar em casa seu pai está arrumando as malas e deixando a família. Logo em seguida o verdadeiro motivo da separação é revelado: seu pai estava apaixonado por um homem. Uma informação dessas não seria fácil para nenhuma pessoa, por mais desconstruída que ela fosse. Para dois adolescentes que se encaixam no padrão da sociedade e que ainda enfrentam o “terror” do colégio é o fim do mundo.

Como muitos garotos de sua idade, Mano ainda é imaturo e carregado de preconceitos. Isso é notável logo no início do filme quando somos introduzidos ao personagem tentando ter sua primeira vez com uma prostituta e fazendo uma caricatura nada amigável de uma colega de classe homossexual, apoiado pelo grupo de amigos. Neste grupo de amigos temos uma única garota inserida que é a Carol (a super carismática Gabriela Rocha), sua melhor amiga, que apesar de não falar nada, reprova o comportamento do amigo.

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Mano nutre uma paixão platônica por Valéria (Sophia Grysheck), a tradicional garota linda e popular da escola. Nos tempos livres, ele tem aula de violão com Marcelo (Paulo Vilhena) e decide aprender Something (aliás, a trilha sonora do filme é bem legal) para conquistar a garota. Carol nutre uma paixão platônica por Arthur (Caio Blat), professor de Física do colégio. Pedro namora, mas tem uma personalidade soturna e carregada que acaba sufocando a namorada. São nesses conflitos, mesmo que alguns pareçam superficiais, que temos o grande trunfo desse filme: a sensibilidade da direção de Bodansky e o roteiro inspirado de Luis Bolognesi, que nos ajudam a entender todos os personagens e suas dores sem julgamentos.

Um exemplo dessa sensibilidade e sutileza é a cena que Mano conta para Carol que seu pai é homossexual e ela reage com naturalidade em um dos melhores diálogos do filme:

– Meu pai tá namorando um cara.
– Sério? Jura mesmo? Como você sabe?
– Quando eles se separaram ele contou pra gente.
– Nossa, Mano, teu pai é muito corajoso.
– Carol, você não tá entendendo. Meu pai é gay.
– Tá, Mano, e o meu que é Antropólogo? Meu, sei que é estranho falar isso, mas ele podia ter ficado pra sempre escondido no armário. Meu, tá muito normal isso hoje em dia, o diretor da Matrix trocou até de sexo.

Tão importante quanto Mano nessa história é Carol, e não só pelo já citado carisma inegável da atriz. O título do filme, inclusive, é das anotações fofas e sagazes que a personagem faz em seu caderninho. É quase uma regra que meninas amadureçam antes dos meninos. Carol é chamada pelo grupo de amigos com quem anda de “mina de conteúdo”, e todos nós já conhecemos esse tipo de menina alguma vez na vida. É aquela que não se encaixa no padrão das populares do colégio, anda com os meninos e por quem eles geralmente não possuem atração.

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A relação de Mano e Carol é excelente e de ótima química. Melhores amigos, contam segredos um para o outro, inclusive sobre outros interesses românticos. É muito bonita como é feita a passagem para o amor. Ambos já gostavam um do outro sem perceber, já que sempre havia ciúme presente nas suas conversas. No entanto, é quando Mano evolui e passa a ter um melhor comportamento que Carol começa a perceber o seu sentimento. E Mano, que aprendeu Something para a menina popular que ele tinha a paixão platônica, falha ao tocar a música para ela, só executando mais tarde e cativando Carol.

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Por fim, é também muito sutil a forma como é mostrada a evolução dele com sua família e seu meio, que era o colégio. Se no início do filme ele zombava da colega homossexual, quando o segredo do pai deles se torna público e ele até apanha por isso, é justamente essa garota que fica ao seu lado. A partir daí ele passa a ser menos agressivo com a mãe (ambos protagonizam uma cena simples, mas linda, na qual os dois tacam ovos na parede), com o pai e com o namorado dele, que inclusive ajuda a salvar a vida de Pedro por ter notado a depressão do garoto que a família não conseguiu enxergar. As Melhores Coisas do Mundo é um excelente filme que nos mostra que “Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce… Só é mais difícil”.

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