CL 5 Anos – Viva o Cinema Brasileiro | Saneamento Básico – O Filme

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Maior representante da metalinguagem cinematográfica desde a retomada do cinema nacional, Saneamento Básico – O filme é, reconhecidamente, uma das maiores comédias do nosso cinema, principalmente por apostar em uma história simples, muitíssimo bem atuada e bem dirigida.

De modo geral, a comédia é certamente o gênero mais rentável na inconstante história do cinema brasileiro. Desde a época das chanchadas até as comédias dos Trapalhões, o gênero sempre contribuiu para o aumento da participação da produção nacional na venda de ingressos. O mesmo ainda pode ser observado nos dias de hoje, basta analisar os dados de bilheteria dos últimos 6 anos, em que o Brasil conseguiu emplacar 8 filmes no TOP 10 de bilheteria. Desses, 6 eram comédias, e apenas 2 eram dramas. (Dados FilmeB)

Acontece que de lá pra cá, a comédia nacional passou por uma radical mudança, se antes ela tentava se encontrar ao contar histórias simples mas correlatas com nossa realidade, hoje ela prefere apostar em uma história mirabolante com um comediante de sucesso como protagonista pra atrair público, e assim nascem “o filme do Hassum”, “o filme da Janete do Zorra”, “o filme do Porchat” e por aí vai.

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Dirigido por Jorge Furtado e lançado em 2007, “Saneamento” pegou a leva final dessas comédias que não se apoiavam apenas em um comediante, não foi um sucesso de bilheteria, e provavelmente isso contribuiu para o afastamento do diretor do gênero no cinema por um tempo. De lá pra cá, Furtado se dedicou à televisão, com séries e telefilmes, somente no ano passado ele voltou a lançar ficções no cinema, com Real Beleza.

A principal característica de Saneamento Básico é ter o domínio da metalinguagem, já que o longa conta a história de “um filme dentro de um filme”. E embora essa não seja a mais original ideia para um filme, o contexto no qual ele é inserido o torna bastante peculiar. Moradores de uma pequena vila se reúnem para tomar providências acerca da construção de uma fossa para o tratamento do esgoto que causa doenças a população local. O problema consta na falta de verba do município, o único dinheiro disponível na prefeitura é uma espécie de edital de R$10 mil que devem ser usados somente na produção de um vídeo de ficção. Assim, os moradores decidem fazer um vídeo qualquer para obter a verba e então financiar a construção da fossa.

Essa não é a primeira vez que Furtado (também roteirista do filme) usa temas ambientais como pano de fundo. Em um de seus documentários mais famosos, “Ilha das Flores”, o diretor já demonstrava ter uma visão ímpar da consciência ambiental. Por certo o longa de ficção não chega a ser tão direto e cruel quanto o documentário, mas desvela a nossa irresponsabilidade como indivíduos inseridos em um meio.

Aos poucos os personagens vão se envolvendo com a produção, e Furtado vai dando uma aula de como fazer cinema, desde a concepção do roteiro (“O que é ficção?”, a personagem de Fernanda Torres pergunta em um momento) até a pós-produção e consequente lançamento. O trabalho do elenco inteiro é notável, além de Torres, temos ainda Wagner Moura, Camila Pitanga e Lázaro Ramos que em nenhum momento extrapolam a verdade de seus personagens.

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Aliás, Furtado usa esses personagens ainda pra fazer diversas críticas socioeconômicas em relação ao abandono de cidades no interior do Brasil, como a notória falta de tratamento de esgoto, a educação precária, a burocracia estatal e ainda o propagandismo dos políticos, como na cena em que o prefeito da cidade aparece e sume rapidamente das obras apenas para gravar um material de campanha.

O humor do filme não reside em cenas explícitas, sendo mais focado em situações cotidianas, e talvez por isso o filme não tenham atraído tanto público. Apesar disso, não há como não se matar de rir com as gravações do curta “O Monstro do Fosso” e os diversos problemas que surgem com as gravações, como o manuseio correto da câmera, o uso de tripé, de efeitos e principalmente as atuações, tudo isso montado de maneira dinâmica, sem parecer uma caricatura.

Espero que, depois desse filme, ninguém mais fique na fossa.

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