Dois Caras Legais | Crítica

dois_caras_legaisÉ inevitável. Alguns gêneros cinematográficos serão sempre mais representativos de seu tempo do que outros. Em alguns casos, tão representativos que acabam ficando confinados a um certo período, tendo seus exemplares reduzidos substancialmente ou até desaparecendo de vez nas décadas seguintes.

Foi mais ou menos o que aconteceu com os faroestes no início do século passado e com os filmes noir, em grande parte inspirados pelo pessimismo que caracterizou o pós-guerra nos EUA. Há quem diga que os filmes de super-heróis sofrerão um fenômeno semelhante no futuro.

Talvez a melhor coisa do “desaparecimento” de gêneros seja a oportunidade que isso abre para que eles sejam reinventados em outras épocas, o que em geral cria resultados interessantes.

dois_caras_legais2Digo isso tudo porque Dois Caras Legais, novo filme do diretor e roteirista Shane Black, escrito em parceria com Anthony Bagarozzi, é uma homenagem ao que ficou conhecido como “buddy cop films”, tipo de longa que coloca em cena uma dupla policial com pouco em comum. Embora ele se passe na década de 70, a inspiração veio mais dos anos 80, quando filmes como 48 Horas e Máquina Mortífera faziam sucesso.

O “gênero” certamente não desapareceu, mas não é mais o que era, servindo hoje mais como suporte para comédias. Em Dois Caras Legais, no entanto, Black volta a dar uma vibe retrô, mais condizente com a época, ao filme.

Ele começa seguindo uma das regras de ouro desse tipo de filme: os protagonistas Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling) têm personalidades e vidas praticamente opostas. Enquanto o primeiro é uma espécie de mercenário, torturado por sua falta de utilidade no mundo, March é um detetive particular picareta, alcoólatra, meio azarado e inclinado a não levar nada a sério.

TNG_DAY_#03_10282014-193.dngA adição surpresa a essa fórmula é a filha de March, Holly (Angourie Rice). Ganhando destaque com o passar da narrativa, ela é uma espécie de contraposição ao pai, o qual não hesita em alguns momentos a chamar uma jovem que nem conhece de vadia e a passar cantadas em qualquer mulher que encontra (e simboliza a mentalidade que costumava perpassar por filmes da época).

A garota, por outro lado, circula por uma festa de celebração pornográfica, pelo carro de um sequestrador implacável e em meio a um tiroteio com a mesma desenvoltura e independência, livre o suficiente do preconceito dos dois adultos para manter uma conversa normal com uma prostituta e conseguir informações importantes para o caso.

Não é à toa que a jovem trata o pai como criança, assume o volante de seu carro na maior parte do tempo e em outros momentos o trata como um grande imbecil. Ajuda muito o fato de Rice estar estupenda no papel, sobressaindo-se muitas vezes até à ótima química entre Crowe e Gosling. Também não é casual que March seja retratado como um belo idiota, infantilizado ao extremo, e que sua trajetória para reconquistar a filha seja quase uma paródia de si mesma, em que tudo acontece por pura sorte.

dois_caras_legais4Na verdade, é interessante constatar que são só mulheres que movem o mistério principal, seja através da própria Holly, das peripécias de Amelia (Margaret Qualley) ou da personagem interpretada por Kim Basinger. Enquanto isso, todos os homens, com a possível exceção de Healy, são idiotas ou meros joguetes na sequência dos fatos.

O problema do filme, se há algum, é a irregularidade do humor. Um dos motivos pode ser o preciosismo de Black com seus diálogos. De fato, há algumas falas excelentes (destacaria a história sobre Nixon contada por Healy), mas há cenas em que elas soam excessivas. Invadem a ação e parecem diminuir os riscos para os personagens.

Outra razão é a aposta em comédia física. Há um determinado ponto em que, sim, já entendemos que March é atrapalhado e propenso a acidentes, mas, sabe, Black só quer jogá-lo por mais uma janela e depois sobre aquele teto de vidro, etc.

dois_caras_legais5De uma maneira geral, porém, Dois Caras Legais funciona, traz um olhar novo sobre um gênero antigo e poderia até render uma ótima sequência, porque há lenha para queimar, embora não seja algo estritamente necessário. Aliás, considerando-se que o filme não foi nenhum grande sucesso de bilheteria, uma continuação é até um tanto improvável.

Cotação-4-5dois_caras_legais_posterDois Caras Legais (The Nice Guys)

Gênero: Ação, Comédia, Mistério

Direção: Shane Black

Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi

Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Matt Bomer, Margaret Qualley, Kim Basinger, Yaya DaCosta, Keith David, Bo Knapp, Lois Smith, Murielle Telio, Gil Gerard, Daisy Tahan, Jack Kilmer, Lance Valentine Butler

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