Mãe Só Há Uma | Crítica

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A primeira coisa que vem à mente com um caso como o de Pedrinho é: o que se passou na cabeça e na vida daquelas pessoas depois de um evento como esse? Para quem não lembra, em 2002 o jovem e a irmã foram restituídos às famílias originais, depois que a polícia descobriu que sua mãe de criação havia sequestrado as crianças na maternidade.

Mãe Só Há Uma parece ser uma resposta a esse questionamento, ou ao menos uma tentativa de explorar as reações dos principais envolvidos na questão. Para isso, quebra o acontecimento em pequenos momentos cotidianos, isoladamente quase banais, mas que ajudam a montar um panorama complexo de relações em torno de um acontecimento extremamente traumático para todas as partes.

Em vez de Pedrinho, aqui é Pierre (Naomi Nero, ótimo) que descobre que a mãe de criação (Daniela Nefussi) o havia sequestrado na infância. Com isso, é obrigado a conviver cada vez mais com os pais biológicos (Matheus Nachtergaele e Daniela Nefussi, em dois papéis) e o irmão (Daniel Botelho), de melhor condição financeira e com um estilo de vida muito diferente do seu.

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Assim como em Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert volta a fazer do choque de classes um tema central no filme, unindo os pequenos preconceitos de ambos os lados às grandes dificuldades já existentes na situação. A escolha de colocar a atriz Dani Nefussi em papel duplo, neste caso, é muito interessante, porque exemplifica bem a dimensão da dualidade criada na cabeça do garoto.

Com o pai, o roteiro corre o risco de cair em uma certa caricatura da classe média alta brasileira que já aparecia no filme anterior da diretora. Felizmente, essa sensação é quebrada em uma cena que, na falta de uma palavra melhor, pode ser considerada o clímax do longa.

Evitando encaixar-se em definições de gênero, desafiando preconceitos e resistindo à imposição de qualquer tipo de restrição, é Pierre, no entanto, o grande personagem do filme. O garoto age sempre com uma certa pontada de egoísmo e indiferença, mostrando logo ser uma força da natureza, incontrolável principalmente por pessoas antes acostumadas com uma certa ordem natural das coisas.

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A assistente social (Helena Albergaria), responsável por mediar a aproximação entre o garoto e a nova família, diz uma coisa importante em determinado momento do filme que explica, de forma até bastante didática, o que talvez seja o cerne do problema.

Para a família, reencontrar um filho perdido após 17 anos é uma alegria indescritível. Para o garoto, deixar tudo o que conhecia como família e passar a viver com totais estranhos é uma perda terrível, a ponto de nem seu nome lhe pertencer totalmente. As duas partes do evento, por causa da cegueira causada pelas respectivas felicidade e tristeza, são incapazes de ver aquilo pelo que o outro está passando.

Muylaert se mostra a cineasta perfeita para contar esta história e destrinchar, com tato e delicadeza, um acontecimento de consequências tão grandes em tantos pequenos momentos. Além disso, lança um olhar carregado de uma certa ternura para todos os envolvidos, fato que culmina na belíssima cena final. A sequência nos faz pensar que, apesar de tudo o que vimos, só arranhamos verdadeiramente a superfície de alguns personagens.

Cotação-4-5

mae_so_ha_uma_posterMãe Só Há Uma (idem)

Gênero: Drama

Direção: Anna Muylaert

Roteiro: Anna Muylaert

Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Daniel Botelho, Matheus Nachtergaele, Laís Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Tenca

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