Julieta | Crítica

julietaPedro Almodóvar é um daqueles poucos diretores com um estilo tão próprio e característico que bastam alguns poucos minutos na sala de cinema com um de seus filmes para identificar seu autor. É o tipo de coisa que torna um cineasta inesquecível, mas também o que pode dar início ao coro de reclamações sobre a mesmice e o excesso de repetições em sua carreira (Woody Allen que o diga).

De certa maneira, Julieta não é muito diferente dos outros filmes do cineasta argentino. A história, baseada em três pequenos contos da escritora canadense Alice Munro, todos com a mesma personagem, acompanha parte da vida de sua protagonista (Adriana Ugarte/Emma Suárez).

Julieta está prestes a partir para longe ao lado do namorado Lorenzo (Dario Grandinetti, que já havia atuado com Almodóvar no excelente Fale Com Ela) quando um encontro fortuito desperta memórias dolorosas. Em uma carta à filha Antía (Priscilla Delgado/Blanca Parés), que não vê há muito tempo, ela decide contar sua história desde o momento em que conheceu o marido Xoan (Daniel Grao), durante uma viagem de trem que terminou em tragédia.

julieta2Embora dificilmente possa ser descrita como uma narrativa discreta ou contida, ela passa essa impressão se comparada a outros trabalhos mais “escandalosos” do diretor.

Toda a gama de sentimentos internos conflitantes da protagonista é quase sempre traduzida em diálogos e imagens, de maneira que o filme deixa poucas dúvidas sobre o que Julieta pensa ou o que faz. Por outro lado, sua filha permanece um mistério praticamente do início ao fim, com as motivações confusas apenas parcialmente explicitadas por depoimentos de amigos e pelas lembranças pouco esclarecedoras de Julieta sobre a adolescência da garota.

Essa indefinição é o que empresta ao filme um senso de urgência, e que se conecta muito bem com o sentimento difuso de culpa experimentado por Julieta em dois momentos chave de sua vida. Essa culpa inexplicada, porque cotidiana e indecifrável, parece remeter a algo maior. Talvez a uma culpa universal tacitamente atribuída às mulheres pelo infortúnio dos homens, ainda que estes sejam quase sempre responsáveis por suas próprias falhas.

julieta3O tema da angústia feminina é explorado de formas diferentes tanto em Julieta quanto em sua filha, esta quase o tempo todo do lado de fora da tela. Essa teia de sentimentos de culpa cria um entrelaçado interessante relativo ao emocional das personagens femininas, ao mesmo tempo em que deixa os homens de escanteio, como simples peças de xadrez na corrente dos fatos – um ponto em que o cinema de Almodóvar e a literatura de Munro convergem em perfeita sintonia.

Ainda que não saia muito do campo tradicional de Almodóvar, Julieta talvez seja sua narrativa emocionalmente mais complexa desde Má Educação e certamente um respiro de alívio depois do horror que é Os Amantes Passageiros, tranquilamente o pior filme de sua carreira.

Isso não quer dizer que ele esteja se reinventando ou acrescentando algo ao seu estilo. E não há problema algum nisto. Um bom e velho Almodóvar ainda é um bom Almodóvar, mesmo sem o toque de gênio que caracterizou alguns de seus outros filmes.

Cotação-3-5cartaz_julietaJulieta (Idem)

Gênero: Drama

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco: Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Emma Suárez, Daniel Grao, Dario Grandinetti, Nathalie Poza, Agustín Almodóvar, Mariam Bachir, Susi Sánchez, Pilar Castro, Bimba Bosé, Blanca Parés, Joaquín Notario

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