Procurando Dory | Crítica

 

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Por muito tempo, a Pixar foi considerada um bastião da criatividade em meio a uma Hollywood que já começava a acordar para as perspectivas financeiras positivas, porém decepcionantes, do investimento em remakes e continuação. Os últimos filmes da produtora, no entanto (com exceção de Divertida Mente), parecem nos dizer que essa crença já não encontra reflexo na realidade.

Além de estar apostando cada vez mais em continuações (o que foi ótimo para todos os filmes do universo de Toy Story, mas péssimo para, digamos, Carros 2, filme mais problemático da Pixar até hoje), a produtora vem dando mostras de desgaste em sua fórmula e, o que seria impensável alguns anos atrás, vem se mostrando descuidada na construção da jornada de seus personagens.

Procurando Dory, um bom filme, mas talvez não tão bom dentro do cânone de alta qualidade criado pela Pixar nas últimas décadas, narra o que acontece antes e quase imediatamente depois do resgate de Nemo no primeiro longa. Dory (Ellen DeGeneres), peixinha com uma condição que a obriga a enfrentar lapsos de memória a cada seis minutos, subitamente recorda que está perdida dos pais há anos e decide partir em uma viagem para encontrá-los.

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Logo de cara, temos a oportunidade de nos deparar com a versão mais jovem e substancialmente mais fofinha de Dory, ao lado dos pais, em um flashback que é acompanhado por muitos outros ao longo do filme. Alguns necessários para a narrativa, outros só mesmo para deixar a coisa toda mais bonitinha.

De certa forma, isso ajuda a dar o tom do filme como um todo, uma aventura repleta de personagens coloridos, fofos e divertidos, mas cujas histórias e personagens o roteiro em momento algum se propõe a desenvolver para além de bons pretextos para gags.

Não há problema algum na escolha per se. Todo filme tem o direito de ser leve e mais “superficial” em sua proposta, a depender do contexto. A questão com Procurando Dory é que o filme quer nos emocionar e envolver na relação entre os seus personagens, mas sem entregar grande coisa em contrapartida.

FINDING DORY

É o que acontece com Hank (Ed O’Neill), por exemplo. O polvo, que ajuda a peixinha ao longo de boa parte de sua jornada, é mostrado como alguém que tem medo de voltar ao oceano por algum trauma do passado (um de seus tentáculos também está faltando, o que só serve como desculpa para uma piada um tanto inadequada). Porém, ficamos sabendo pouco sobre sua história e personalidade, o que torna sua amizade com Dory, cujo senso de aventura representa praticamente o oposto das convicções do polvo, e sua decisão final muito menos impactantes do que deveriam ser.

Marlin (Albert Brooks) e Nemo (Hayden Rolence) estão presos quase exatamente na mesma dinâmica do filme anterior e não têm muito a fazer aqui. Quando a narrativa larga Dory para acompanhá-los, fica uma sensação de falta de necessidade, porque eles não são em momento algum incorporados ao foco da narrativa.

Visualmente, o filme, assim como o curta que o antecede (o simples, mas quase perfeito Piper), é ainda um avanço em relação ao anterior, com a textura e a inventividade dos cenários debaixo d’água fornecendo o pano de fundo ideal para a história que procura contar. Os efeitos para retratar a água de maneira convincente sempre foram considerados um dos grandes desafios para a animação. A extensão em que a Pixar é bem-sucedida nisso demonstra o abismo que se abriu entre ela e os outros estúdios nesse quesito.

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As grandes jornadas montadas pelo estúdio para seus personagens costumam ser acompanhadas por uma evolução na forma como eles enxergam o mundo, que em geral evidencia a temática do filme. Procurando Dory acerta, por exemplo, ao apostar em relacionamentos entre personagens com alguma deficiência em variados níveis, assim como no tema de diferentes configurações de família e ainda na importância da liberdade para os animais marítimos.

Poderia, no entanto, desenvolver esses temas melhor ou ao menos optar por um deles para acompanhar mais de perto sua linha narrativa. Sem isso, Procurando Dory é, assim como seus personagens, uma aventura bonitinha, mas facilmente esquecível e descartável.

Cotação-3-5

cartaz_procurandodoryProcurando Dory (Finding Dory)

Gênero: Animação

Duração: 97 min

Direção:  Andrew Stanton, Angus MacLane

Roteiro: Andrew Stanton, Victoria Strouse, Bob Peterson

Elenco de vozes originais: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Sloane Murray, Idris Elba, Dominic West, Bob Peterson, Kate McKinnon, Bill Hader, Sigourney Weaver, Alexander Gould, Torbin Xan Bullock, Andrew Stanton, Katherine Ringgold, Lucia Geddes, Bennett Dammann, John Ratzenberger, Angus MacLane, Willem Dafoe, Brad Garrett, Allison Janney, Austin Pendleton, Stephen Root, Vicki Lewis, Jerome Ranft

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