Big Jato | Crítica

big_jatoPara além das diversas questões que envolveram o diretor pernambucano Claudio Assis neste ano, seu novo filme, Big Jato, apresentado ao público pela primeira vez no Festival de Brasília, não tem nada de muito polêmico. Na verdade, traz de volta vários elementos da filmografia do cineasta e os embala no invólucro mais ensolarado e ingênuo de um coming-of-age.

A história da juventude de Xico (Rafael Nicácio) na cidadezinha nordestina de Peixe de Pedra segue à risca a cartilha. Tem um pai opressor (Matheus Nachtergaele), um mentor que ajuda a colocá-lo nos caminhos da vida adulta (Matheus Nachtergaele sem bigode e óculos), o (malfadado) primeiro amor, o sexo, dificuldades com os colegas e irmãos, a descoberta da arte.

Só não tem o que talvez seja o mais importante: algum elemento que dê liga nisso tudo. A direção frouxa e autoconsciente de Assis não ajuda muito. Aqui, seu espírito transgressor se limita a colocar o máximo de “cus” e “bucetas” em cada cena e reforçar a analogia furada entre a profissão do pai de Xico, que trabalha como limpador de fossas sanitárias, e a vida. Talvez uma vez só fosse suficiente para entender que, sim, a merda é uma necessidade universal e, sim, limpá-la é um trabalho digno e importante, mas não muito agradável.

big_jato3O filme, na verdade, lembra muito as frases de caminhão que o pai de Xico ostenta em seu mambembe Big Jato, que dá nome ao filme e ao livro original de Xico Sá, aquelas sacadinhas tão graciosas quanto grosseiras e infames e que, no fim das contas, não querem dizer muita coisa.

O fraco do diretor para as frases de efeito (“máquina de escrever é poesia, computador é prosa”; “homem com cheiro de buceta nas ventas e poesia no cérebro não vai pra frente” etc.) aqui beira o descontrole. São frases muito mais próximas do irrelevante do que a tal importância de que tentam se recobrir, partindo para a verborragia na busca por uma poética do escracho que o filme é incapaz de encontrar em imagens ou situações da própria narrativa.

Muitos dos elementos são autobiográficos e remetem à infância do escritor e jornalista Xico Sá, autor do livro original. Além da saga do protagonista ao lado de seu pai na boleia do caminhãozinho “recolhe-bosta”, acompanhamos o relacionamento de Xico com um tio radialista e antilabuta, fissurado na banda Os Betos, que ele jura ser precursora e influenciadora dos Beatles. Há também em Peixe de Pedra um mendigo metido a príncipe do período imperial (Jards Macalé), que gosta de compartilhar suas memórias poético-amorosas com o jovem.

big_jato2Esses elementos que deveriam emprestar algum humor à narrativa acabam se mostrando mais irritantes do que propriamente engraçados, primeiro porque sua conexão com a narrativa central é nula, segundo porque levam de nada a lugar nenhum e terceiro porque sua repetição à exaustão é profundamente tediosa.

A simpatia de alguns personagens, aliás, é problemática porque faz com que o roteiro estenda esse olhar inapropriadamente cândido para seus defeitos, que não são pequenos (o pai de Xico é violento, agressivo e preconceituoso; o tio foi preso por aliciamento de menores).

Mulheres, por outro lado, não parecem ter tido grande participação no crescimento do pequeno Xico. Na verdade, atuam sempre como elementos repressores, seja no caso da jovem (Paly Siqueira) que brinca com seus sentimentos por puro interesse ou da mãe (Marcélia Cartaxo) que só abre a boca para reclamar do pai (e com razão).

big_jato4O que faz Big Jato nunca funcionar completamente, no entanto, é uma certa falta de rumo do roteiro, que repete situações semelhantes de forma indiscriminada, sem uma linha narrativa clara.

Alguns podem argumentar que a estrutura, se é que há alguma, reflete o ritmo caótico da infância e das memórias. No entanto, quando o filme chega a seu previsível desfecho, uma narração supostamente inspiradora zumbindo ao fundo, a impressão é de que isso é mais resultado de falta de criatividade do que de um compromisso verdadeiro com a “realidade da vida”.

Cotação-2-5

cartaz_big jatoBig Jato (Idem)

Gênero: Drama

Duração: 93 minutos

Direção: Claudio Assis

Elenco: Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo, Rafael Nicácio, Artur Maia, Vertin Moura, Clarice Fantini

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