Amor Por Direito | Crítica

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É preciso encarar uma realidade dura: Às vezes um filme é simplesmente ruim, por mais bem intencionado que seja. Isso não tem nada a ver com concordar ou não com sua ideia principal, ou sua “mensagem”, mas com a forma como ela é passada e com a coisa toda como uma experiência puramente cinematográfica.

Torna-se ainda mais triste dizer isso sobre um filme como Amor Por Direito, que reconta um acontecimento fantástico por si só. A coisa toda começou em meados dos anos 2000, quando Laurel Hester (Julianne Moore), uma veterana da polícia do condado de Ocean, em New Jersey, descobriu que sofria de câncer em estado avançado, potencialmente incurável.

Foi quando Laurel, que vivia há alguns anos com a parceira Stacie (Ellen Page), descobriu que, no condado, as leis que regiam o pagamento de pensões a maridos e esposas de policiais não se estendiam a pessoas do mesmo sexo.

O caso motivou uma longa briga judicial em que Laurel contou com o apoio de entidades do movimento gay, de colegas da corporação e de muitos moradores da comunidade local que tiveram suas vidas melhoradas pela ação de Laurel na polícia (estes dois últimos não devidamente mostrados no filme, mas chegaremos lá). Acredita-se que este foi o estopim para uma escalada de manifestações por direitos que levaram à aprovação do casamento gay nos Estados Unidos em 2015.

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Amor Por Direito opta por começar a contar esta história alguns anos antes do início da briga, em 1999, quando Laurel conheceu Stacie. A escolha é aparentemente adequada, já que muito do envolvimento que deveremos ter com a narrativa decorre da relação entre estas duas mulheres.

O problema desde o início é mais cinematográfico do que ideológico, mas acaba por atingir os dois campos. Há diálogos dolorosos de tão ruins e personagens extremamente unidimensionais, incluindo na conta também as protagonistas, cujas personalidades nunca vão além daquilo que é mais conveniente para o roteiro. Este fator é ainda mais triste porque há aqui um elenco de primeira que conta ainda com Michael Shannon e Steve Carell.

Carell, aliás, representa muito do que há de errado no longa. Com seu personagem caricato e francamente ofensivo, ele parece estar em um filme completamente diferente. Ativista homossexual criador do grupo Garden State Equality, Steven Goldstein aparece como um cara manipulador, cujo único interesse no caso de Laurel é usá-lo para alavancar sua luta em defesa do casamento gay.

Ele é um tanto quanto babaca (“Querida, eu me casaria com você, mas não saberia o que fazer com sua vagina” é apenas uma de suas pérolas) e, por consequência, a amostra do movimento gay que é mostrada no filme soa oportunista. Não ajuda nada o fato de ser uma movimentação puramente midiática, na qual em nenhum momento alguém demonstra preocupação ou emoção real em relação a Laurel e Stacie.

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Inexplicavelmente, o filme se esquece também de mostrar o apoio local a Laurel e, pior do que isso, representa a polícia como se a mesma tivesse virado as costas inteiramente para ela. O que está bem longe da verdade, segundo gravações da época, em que colegas da corporação se ofereceram para dar depoimentos sobre sua postura exemplar na polícia. O longa recorre inclusive à saída fácil de personificar todos os preconceitos possíveis na pessoa de um oficial inteiramente fictício (Anthony DeSando).

O roteiro também faz outras escolhas muito estranhas, como explorar muito pouco e mal a mudança de convicções de Dane Wells, um republicano conservador que, na vida real, afirmou nunca ter pensado nas reivindicações da comunidade gay antes das dificuldades da colega. Até mesmo o cargo de tenente, conquistado bem antes, o filme só entrega a Laurel no final da doença, quando ela já estava há meses sem atuar na corporação, como se o motivo fosse mais pena do que mérito.

Ocasionalmente, Amor Por Direito emociona, porque a história é forte o suficiente e as atuações são boas, ao menos quando o roteiro lhes dá algum espaço para respirar. Ainda assim, aí vai uma dica: Antes de ver o filme, vá atrás do curta documental vencedor do Oscar em 2008, Freeheld, esta sim uma narrativa digna sobre a luta bastante real de Laurel Hester e Stacie Andree por justiça.

Cotação-1-5

Amor Por Direito - poster nacionalAmor Por Direito (Freeheld)

Direção: Peter Sollett

Roteiro: Ron Nyswaner

Elenco: Julianne Moore, Ellen Page, Michael Shannon, Steve Carell, Luke Grimes, Gabriel Luna, Anthony DeSando, Skipp Sudduth, Josh Charles, Kevin O’Rourke, Tom McGowan, William Sadler, Dennis Boutsikaris, Adam LeFevre, Jeannine Kaspar, Mary Birdsong, Kelly Deadmon, Traci Hovel, Julie Reiber, Mina Sundwall.

Gênero: Drama/Romance

Duração: 103 minutos

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