Ave, César! | Crítica

ave_cesar1

Os irmãos Coen nunca esconderam de ninguém o interesse que têm pelo cinema hollywoodiano, independentemente de tipos ou gêneros. Isso está claro desde sua estreia impressionante com o ocasionalmente subestimado Gosto de Sangue.

De maneira um pouco mais sutil que Tarantino, os Coen sempre fizeram filmes sobre filmes, ou ao menos filmes que recobram elementos clássicos de diversos gêneros cinematográficos. Isso é especialmente verdadeiro para uma obra como Barton Fink, seu mais interessante mergulho nos bastidores cinematográficos, mas fica bastante claro em todos os seus longas, em grande parte versões razoavelmente subvertidas de gêneros hollywoodianos.

Ave, César! pode ser considerado o resultado mais natural do eterno interesse dos Coen por filmes. Os cineastas unem aqui essa paixão pelo cinema ao seu acentuado talento para a ironia em uma narrativa que, por se levar bem pouco a sério, pode acabar parecendo um filme menor da dupla. Não é o caso.

ave_cesar2

O que os Coen fazem, com um tom uniformemente cômico, é rir do senso de importância internalizado pelo cinemão norte-americano. A parte mais difícil, porém, é o equilíbrio que existe entre esse tom e uma certa reverência justamente ao que é feito ali.

O filme encapsula perfeitamente o que significa se deixar enganar pela fé (mostrada de forma literalmente religiosa em alguns momentos) nos filmes e no cinema. O que não quer dizer que a diversão seja deixada de lado. Para quem tem um bom conhecimento sobre as produções e o período mostrados, e até para quem não tem, é uma delícia ver sequências de longas típicos dos anos 50 sendo criadas, com toda a pompa, a autoimportância e, por que não, a cafonice correspondentes.

Portanto, temos Scarlett Johansson relembrando os números musicais de Esther Williams, com uma coreografia aquática. Já Channing Tatum, vestido de marinheiro, sapateia em um bar, o que remete diretamente a Um Dia em Nova York, com Gene Kelly.

ave_cesar3

Alden Ehrenreich literalmente rouba a cena tentando adaptar o jeito caipira de seu personagem, ótimo nos filmes do Velho Oeste que aqui o tornaram famoso, para um longa sofisticado que lembra as “produções de qualidade” de Ernst Lubitsch na Hollywood da vida real. Há até mesmo a rápida aparição de uma atriz latina que costuma usar frutas na cabeça (Verónica Osorio), em uma óbvia referência à nossa Carmen Miranda.

A paranoia da época é relembrada em divertidas sequências que também servem de desculpa para o desenvolvimento da trama, em que o grande astro vivido por George Clooney entra em contato com alguns roteiristas que, apesar de incrivelmente civilizados, foram seduzidos pelo comunismo. Na caricatura proposital construída, apoiar Hollywood significa apoiar a América. Acreditar nos soviéticos quer dizer sair da ilusão de bem estar, ignorar a fé no status quo americano.

Todos esses eventos são centrados no dirigente do Estúdio Capitol Pictures, Eddie Mannix (Josh Brolin), talvez o único que tenha consciência da artificialidade que o cerca, e que assume os olhos do público ao escolher adentrar e acreditar naquele mundo apesar de tudo.

ave_cesar4

Seu dilema entre ficar na indústria ou deixá-la por um emprego melhor em uma companhia aérea (que faz testes militares em uma ilha qualquer) representa a escolha entre o escapismo não tão fácil dos filmes e a realidade crua.

A religiosidade do protagonista é a principal pista para a forma como ele enxerga seu trabalho no estúdio. Pode ser também uma dica para entender o cinema dos próprios Coen, uma relação dividida entre amor e autoconsciência que permeia suas produções e é um dos maiores motivos porque quase todo mundo hoje é tão apaixonado pelo cinema da dupla.

Cotação-4-5

Ave, César! - poster nacionalAve, César (Hail, Caesar)

Direção: Ethan Coen e Joel Coen

Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen

Elenco: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Frances McDormand, Channing Tatum, Jonah Hill, Veronica Osorio, Heather Goldenhersh, Alison Pill, Max Baker, Clancy Brown, Fisher Stevens, Patrick Fischler, Tom Musgrave, David Krumholtz, Greg Baldwin, Patrick Carroll.

Gênero: Comédia/Musical/Policial

Duração: 106 minutos

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s