Rua Cloverfield, 10 | Crítica

Atenção: o texto a seguir contém spoilers.

rua_cloverfield_10O objetivo de quase todo filme blockbuster é levar o público para o meio de um evento gigantesco, fazê-lo sentir na pele a ação, os alto-falantes explodindo , a adrenalina subindo, os personagens enfrentando situações de grande risco sem nunca perder o humor e a pose. Em uma única palavra, todo blockbuster tem a intenção de ser uma coisa: grande.

Desde seu anúncio surpreendente no início do ano, Rua Cloverfield, 10 desafia a noção do que constitui um blockbuster na cultura cinematográfica atual. Sem uma campanha de marketing expressiva e com um orçamento extremamente baixo para o seu conteúdo (e sem a necessidade do found footage usado pelo Cloverfield original), a proposta do filme é no mínimo curiosa.

Construído ao redor de um evento de proporções mundiais, o roteiro decide usá-lo apenas como pano de fundo para um suspense intimista, com toques de terror. Os personagens ganham nuances e sutilezas que você raramente encontra em filmes como este, e a narrativa dedica a maior parte de sua 1h45 de duração para mostrar suas personalidades e construir uma relação crível entre eles.

Mary Elizabeth Winstead, atriz que ainda não teve seu talento devidamente reconhecido na indústria, interpreta Michelle, uma jovem que, após um acidente, acaba parando nas mãos de Howard (John Goodman, como sempre excelente), paranoico adepto do sobrevivencialismo que acredita que o apocalipse acaba de acontecer, e eles são os únicos sobreviventes.

Presa em um bunker, sem poder ver o que acontece lá fora e contando com a ajuda do simpático bonachão Emmett (John Gallagher Jr.), a garota precisa descobrir se o homem é apenas um lunático ou se há um fundo de verdade em suas convicções.

Primeiramente, é preciso dar o braço a torcer para o diretor estreante Dan Trachtenberg, que cria uma escalada de tensão quase perfeita do início ao fim. Mesmo sem forçar um mistério sem pé nem cabeça e sem ser exatamente surpreendente, o filme cria reviravoltas inteligentes, que podem deixá-lo chocado em alguns momentos. J. J. Abrams provavelmente também merece levar algum crédito por seu trabalho como produtor, já que o filme carrega marcas muito características de sua carreira.

A prova dos nove de Rua Cloverfield, 10, no entanto, acontece em seu final, quando o filme supostamente precisa justificar toda a tensão construída até ali. E é exatamente este o momento que pode irritar tanto os fãs de ficção científica e produções gigantescas como quem estava vibrando com as escolhas mais modestas feitas pelo roteiro (ainda que uma coisa não exclua a outra).

Na realidade, o filme fica entre dois gêneros e faz questão de mesclá-los de maneira nada orgânica. Quase como se quisesse pregar uma peça no espectador, apontar para o que o longa “deveria ser” da forma mais ostensiva e irônica possível. O bom é que essa escolha não prejudica em nada o resultado final, uma explosão emocionante após 1h30 de construção cuidadosa da tensão.

rua_cloverfield_10_3Ainda que o filme seja um blockbuster por definição, ele também desafia grande parte das coisas que uma superprodução deveria ser. Ao fazê-lo de forma claramente consciente, se torna uma espécie de antiblockbuster, uma bem-vinda anomalia cinematográfica.

PS. Não leve a conexão entre este filme e o Cloverfield de 2008 muito a sério. Como o próprio Abrams adiantou, esta é uma continuação espiritual do original, o que não significa que tenha uma ligação direta com ele.

Cotação-4-5Rua Cloverfield, 10 - poster nacionalRua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane)

Direção: Dan Trachtenberg

Roteiro: Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle, baseado em história de Josh Campbell e Matthew Stuecken

Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher, Jr., Douglas M. Griffin, Suzanne Cryer, Bradley Cooper, Sumalee Montano, Frank Mottek, Jamie Clay, Cindy Hogan, Mat Vairo.

Gênero: Drama/Ficção/Suspense/Terror

Duração: 103 minutos

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