Batman vs Superman: A Origem da Justiça | Crítica

ATENÇÃO! Esta crítica pode conter informações consideradas SPOILERS, assista ao filme antes da leitura ou arrisque-se a perder algumas “surpresas”. O que farei aqui é não só uma análise do filme em si, mas de toda a polêmica e discussão que ele vem causando.

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O cinema, como qualquer obra cultural e artística, reflete o mundo em que vivemos. E o mundo hoje está, ao mesmo tempo que mais cínico, também mais consciente das baixas sofridas pelo terrorismo e pelas guerras. O mundo não está mais violento, ele sempre foi, a humanidade “””evolui”””(muitas aspas aí) na base da violência, do confronto, das guerras pelo poder.

Daí um filme de super-heróis finalmente decide abordar isso, as consequências que confrontos violentos entre seres poderosos têm sobre a humanidade, e o cinismo e desconfiança que uma figura como Superman teria sobre o mundo, que com certeza ganharia opositores, principalmente nas escalas mais altas da pirâmide social. E é massacrado por isso. Se há erros em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, é por falhas na execução das ideias, mas não pelas ideias em si, que demonstram coragem para sair do lugar comum do gênero.

Batman vs Superman começa com a morte dos pais de Bruce Wayne sendo assassinados pela terceira vez no cinema. Muitos podem reclamar disso, mas a sequência, além de muito bem filmada, é essencial para o desenrolar da trama. Precisamos compreender o grau do trauma do Batman, justificar suas atitudes que beiram o fascismo (é sério, ele só falta soltar uma pérola do tipo “bandido bom é bandido morto”). Esta nova versão do Batman é diferente de todas as outras já mostradas nas telas, um homem mais velho, que depois de vinte anos combatendo o crime, está intolerante e cruel com seus inimigos, um herói que nunca foi visto como tal, mas como um vigilante que se impõe pelo medo que causa nas pessoas.

Ben Affleck está simplesmente perfeito no personagem, consegue transmitir toda a carga emocional do peso dos anos no submundo, e pela primeira vez é mostrado claramente que Bruce Wayne é um cara muito perturbado, que sua visão de justiça é por vezes deturpada por conta do trauma em que viveu, um homem que julga e condena, tudo na base da violência. Em contraponto, temos em Alfred, seu fiel escudeiro, não apenas como um mordomo e figura paterna (há um paternalismo sim, principalmente nas tiradas sofisticadas ditas com maestria por Jeremy Irons), mas seu personagem aqui, além da voz da consciência, é também um mestre da engenharia bélica, sem ele Batman não teria todos os seus bat-equipamentos. Essa versão foi uma escolha acertada do roteiro, que precisava economizar nos personagens do universo de Gotham.

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Da introdução do Batman voltamos ao ponto da batalha final vista em O Homem de Aço, a controversa luta entre Superman (Henry Cavill) e o General Zod (Michael Shannon) que destrói quase todo o centro de Metrópolis. Mas agora vemos sob o ponto de vista de Bruce Wayne, que lá debaixo vê aqueles dois seres super-poderosos derrubando tudo sem se preocuparem com os milhares de civis que mataram pelo caminho. Essa foi a crítica principal ao último filme do Superman, que afinal foi criado como a personificação do bem, o alienígena que ama tanto a Terra que jamais deixaria um ser humano morrer.

Aquilo foi o ponto fraco do filme do Super mesmo, mas é o ponto-chave da rivalidade entre os dois heróis. Batman, apesar de ser o vigilante cruel, não admite a destruição e as mortes causadas pelo kryptoniano, afinal ele está em defesa dos inocentes, mesmo que às vezes de maneira meio torpe, da violência sobre a violência.

A batalha de Metrópolis também é o ponto de discussão política do filme, aqui encarnado, também com maestria, pela senadora interpretada por Holly Hunter, que deseja que Superman se responsabilize por seus atos e questiona até que ponto ele pode interferir no mundo, até que ponto seus atos são de heroísmo.

Já esta versão de Superman é o que tem causado a fúria maior nos fãs e em alguns críticos, que afirmam que este não é o Superman de verdade. Bom, eu diria que este não é o Superman que eles gostariam que fosse, pelo menos, ainda não, já que é um cara que no primeiro filme não tinha ideia do que fazer com seus poderes e neste está tentando fazer as coisas direito, mas nem sempre acertando. Este Superman sofre com a dicotomia de ser mostrado como um semi-deus, um ser supremo adorado e odiado, e ainda assim cometer falhas como qualquer ser-humano, agindo muitas vezes por impulso.

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Se o filme se resumisse na batalha ideológica entre os dois heróis, talvez a crítica (aquela que voz fala inclusa) tivesse apreciado mais. Mas como gênero, é claro que não poderia faltar um vilão de verdade e um mote para unir os dois contra um mal maior. O vilão é Lex Luthor, também aqui numa versão totalmente nova, que também enfureceu muita gente (como as pessoas rejeitam mudanças, não é?!), mas Jesse Einsenberg não está nem de longe o desastre que bradam. Seu Lex é sim um tom acima, mas é cartunesco e teatral, nada mais natural num filme como este, ele é mais um caso Freudiano de perturbação mental aliada a uma inteligência bem acima da média (de enganar até mesmo outro gênio, Bruce Wayne, que sacrilégio!) que dispensa uma motivação crível para seus atos. Lex Luthor é um sociopata, que quer ver o circo pegar fogo para mostrar quem manda. O poder, minha gente, sempre o poder.

E o que mais fere toda a tensão criada na primeira hora e meia do filme é o estopim que causa o confronto direto entre os heróis, mais uma vez, não a ideia, mas sua execução (o diretor Zack Snyder ainda tem muito o que aprender sobre sutileza), e a maneira rápida com que eles resolvem suas diferenças. Afinal, não era só aquilo, não eram as “Marthas”. Sim, aquilo desencadeou todo o trauma de Bruce Wayne novamente, e foi um grande momento de catarse, mas haviam outras questões construídas ao longo da trama que necessitavam uma conclusão, e a frase emblemática da senadora, de que na democracia as diferenças devem ser resolvidas com diálogo?

Mas eles não têm tempo pra isso, já que logo surge o Apocalipse, monstrengo híbrido de resquícios de Krypton e o corpo do general Zod, cuja única função é unir a trindade da DC e fazer alvorecer a Liga da Justiça.

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Sobre os outros heróis da Liga, só tenho a dizer que Mulher Maravilha é um dos pontos mais altos do filme! Sua aparição é estritamente necessária? Não. Mas foi jogada de forma aleatória? De forma alguma. Ela cumpre muito bem sua função, Gal Gadot justificou lindamente sua escalação como a amazona de Themyscira, ela é realmente maravilhosa. Flash têm uma participação rápida (desculpem o trocadilho), mas emblemática, já Aquaman e Ciborgue cumprem tabela, só temos o gostinho do que vem por aí.

Os personagens “comuns” também não fazem feio, Amy Adams está adorável como sempre, sua Lois pelo menos continua fiel ao que sempre foi, intrépida, se metendo em encrencas e sendo salva pelo Superman (pelo menos mostraram uma ação entre os dois nunca vista antes no cinema). O Perry White de Laurence Fishburne entrega um trabalho competente e Diane Lane (Martha Kent) está como em O Homem de Aço, ótima.

Contando mortos e feridos, Batman vs Superman ainda sai com saldo positivo. Não é um filme perfeito, não vai mudar os paradigmas do gênero, embora tenha ousado e mostrado um diferencial mesmo que a coragem para subverter padrões tenha parado no segundo ato. Mas ainda assim, é muito superior a vários filmes recentes de super-heróis, e um blockbuster que entretém.

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Uma coisa é certa: um filme que causa tanta discussão (aqui no Cinelogin o assunto não cessa desde a pré-estreia) já se vale por isso.

Cotação-4-5

 

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman vs Superman: Dawn Of Justice)

Batman vs Superman: A Origem da Justiça - poster nacional

Direção: Zack Snyder

Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer, baseado nos personagens criados por Bob Kane, Bill Finger, Jerry Siegel e Joe Shuster

Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scott McNairy, Callan Mulvey, Tao Okamoto, Brandon Spink, Lauren Cohan, Michael Shannon, Alan D. Purwin, Mark Edward Taylor, Hugh Maguire, Hanna Dworkin, Ripley Sobo.

Gênero: Ação/Aventura

Duração: 153 minutos

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