Mundo Cão | Crítica

Atenção: a crítica a seguir contém spoilers.

mundo_caoComo em Estômago, filme de maior sucesso artístico do diretor Marcos Jorge, Mundo Cão procura mostrar um pouco das raízes da violência, ainda que, assim como naquele filme, o roteiro prefira se manter na superfície da questão.

Em ambos, o protagonista é um homem pobre e aparentemente confiável (em outras palavras, um “homem de bem”, mas sem a conotação pejorativa que a expressão recebeu nos últimos tempos), que sofre algum tipo de abuso físico ou psicológico e acaba estourando de maneira imprevisível.

Mundo Cão vai ainda um pouco além disto, dividindo-se em duas partes, com a primeira tratando de humanizar uma figura fundamentalmente maléfica (Lárazo Ramos) e a segunda cuidando justamente da perda de humanidade do “herói” (Babu Santana), aqui com muitas aspas.

mundo_cao3O principal problema do filme é que a coisa toda fica nisso.

Era o tipo de tema que pedia uma exploração maior ou um aprofundamento do dilema, o que não acontece em momento algum do fraco roteiro, escrito pelo próprio Jorge, em parceria com Lusa Silvestre. A premissa, ainda que instigante, se perde, porque os autores parecem não ter uma visão clara de aonde querem chegar com ela.

A direção ainda toma alguns caminhos duvidosos, incluindo uma trilha sonora à base de samba que destoa completamente do que é mostrado em tela e uma edição “esperta” bastante descartável. Estes recursos até têm algum sucesso ao impedir que o ritmo do filme caia, mas apresentam uma consequência um pouco mais grave. Graças a eles, o longa é incapaz de criar uma atmosfera crível ou sequer condizente com o seu tema.

mundo_cao5Incomoda também a presença velada de uma triste tendência dos nossos tempos, de justificar nossa violência por meio da violência dos outros. Mundo Cão não chega a declarar isto especificamente, mas dá margem para uma interpretação do tipo, principalmente quando se aproxima de seus instantes finais.

O que ajuda a dar alguma substância à história, no fim das contas, são as boas atuações de Babu Santana, Lázaro Ramos e Adriana Esteves, embora quem acabe mesmo roubando a cena seja a jovem Thainá Duarte (cujo breve currículo inclui apenas uma participação na novela global I Love Paraisópolis). No papel de uma garota muda que vive uma fase difícil da adolescência, sua interpretação é a que melhor revela a situação limite pela qual todas aquelas pessoas estão passando.

Infelizmente, o longa ainda joga diversos conflitos em potencial ao longo da narrativa só para largá-los pelo caminho sem nem tentar desenvolvê-los. Por exemplo, a indolência do pai, que é em grande parte a causa do que acontece ao filho (Vini Carvalho); a difícil ligação entre João e Nenê, inexplicavelmente deixada de lado; e ainda a mudança da dinâmica entre pai e filhos após a saída da mãe que, de uma forma ou de outra, atuava como uma força opressora naquela casa.

mundo_cao6E é essencialmente em tudo que Mundo Cão deixa de explorar que o filme vai perdendo cada vez mais o seu potencial, terminando por ser uma história de vingança absolutamente inócua. Ainda que seu twist final tenha, de fato, uma reverberação narrativa poderosa.

Cotação-2-5Mundo Cão - posterMundo Cão (Mundo Cão)

Direção: Marcos Jorge

Roteiro: Marcos Jorge e Lusa Silvestre

Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Paulinho Serra, Tony Ravan, Eduardo Acaiabe, Lia Antunes, Athos, Celso Cardoso, João Victor D’Alves, Graça de Andrade, Maurício de Barros, Du Dibo, Dragão, Eduardo Estrela, Romis Ferreira, Forward.

Gênero: Drama/Suspense

Duração: 122 minutos

 

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