Clássicos | Janela Indiscreta

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Nossa vida é uma experiência compartimentada, de certa forma. Construímos microcosmos para nós mesmos de acordo com nossas preferências, escolhas profissionais, hobbies, amizades, aparência e até com o tempo e o lugar em que vivemos. Observar um desses pequenos universos de fora pode ser algo tão engraçado quanto revelador.

Em Janela Indiscreta, o mestre Alfred Hitchcock faz uma demonstração do fascínio exercido pelos momentos extraídos das vidas de outros por meio da figura do fotógrafo L. B. Jefferies (James Stewart). Confinado a uma cadeira de rodas devido a um acidente ocorrido enquanto fotografava uma corrida de automóveis, Jefferies está em sua última semana de recuperação.

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Sop os impactos da forte onda de calor que assola Nova York, seus vizinhos passam os dias com as janelas abertas e fatalmente se tornam a principal diversão do cotidiano de Jefferies. Muitas vezes com a ajuda de um binóculo ou das lentes de sua câmera, ele observa com interesse a rotina de uma bailarina cercada por pretendentes (Georgine Darcy), de uma solteirona solitária (Judith Evelyn), de um casal que gosta de passar as noites deitado sob o luar (Frank Cady e Sara Berner), de um músico em busca de um grande sucesso (Ross Bagdasarian) e até de dois recém-casados (Havis Davenport e Rand Harper) que, no fim das contas, escolhem viver seus dias de lua de mel com as cortinas devidamente fechadas, evitando assim o voyeurismo insistente do fotógrafo.

É de uma dessas janelas, mais especificamente a do senhor e senhora Thorwald (Raymond Burr e Irene Winston), no entanto, que Jefferies encontra o principal dilema, um que se torna especialmente perigoso e conduz a narrativa a partir de então. Após o misterioso desaparecimento da inválida Anna Thorwald, as evidências e a movimentação do marido apontam para uma suspeita horrenda: teria Lars Thorwald assassinado a esposa?

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Hitchcock, que sempre teve um interesse maior por suas personagens femininas que pelos homens em seus filmes, faz aqui de Lisa Fremont (Grace Kelly), namorada de Jefferies, uma mulher elegante e determinada. Foi a primeira vez que a atriz interpretou uma mulher independente, saindo do estereótipo da garota à sombra de sua contraparte masculina. É possível considerar Lisa uma personagem feminista para a época, mais hábil, capaz e corajosa que o protagonista, ainda que sua devoção a Jefferies (Stewart tinha 21 anos a mais que ela) seja um tanto enervante. A performance de Kelly é segura e macia como veludo.

Já Stewart vive uma outra variação de sua persona bastante estabelecida, um homem aparentemente grosseiro e sem papas na língua, que prefere fazer graça a dizer o que realmente pensa. Por trás da casca grossa, é claro que esconde um coração mole e uma moral inabalável.

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Curioso imaginar como esta história teria terminado em nada nos dias de hoje. Aliás, se o filme tivesse se passado uns 10 anos após a data original, 1954, Jefferies muito provavelmente teria um aparelho de televisão e passaria seus dias grudado na tela, ao invés de espionar os vizinhos (no mundo real, uma troca melhor e mais segura, pelo menos). Não haveria dúvidas sobre o assassinato, porque ninguém teria ideia do que acontecera. Afinal, é a falta de uma distração consistente que leva o fotógrafo a essa obsessão pouco saudável.

Janela Indiscreta pode não conter as cenas mais impressionantes da filmografia de Hitchcock, como o assassinato no banho de Psicose ou a montagem de pesadelo em Um Corpo Que Cai (embora a sequência que mostra Lisa na casa dos Thorwald, extremamente tensa, tenha feito uma das poucas pessoas na sala de cinema gritar de angústia), mas é certamente um dos filmes mais equilibrados do cineasta.

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Poucas vezes Hitchcock montou uma narrativa que entretém tão bem e, ao mesmo tempo, constrói um suspense tão cuidadoso, com cenas finais de fazer qualquer um grudar na beira do assento. Hoje, segue sendo um dos melhores e mais divertidos exemplares de sua extensa cinematografia.

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