A Bruxa | Crítica

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É possível que uma das razões porque filmes de terror são vistos com reserva por parte do público de cinema é que eles já nascem com uma obrigação dupla, que quase nunca conseguem cumprir. Precisam, é claro, ser “aterrorizantes”, mas também evitar a todo custo cair nos lugares comuns do gênero.

A tarefa tem se provado difícil nos últimos anos, com uma série de filmes genéricos e esquecíveis, feitos apenas para se beneficiar de fatia do público ainda fiel ao horror. Quando isso não acontece, a tendência é que as produções pendam demais para um “lado artístico” e deixem a desejar no quesito terror, ao menos em relação ao gosto popular. É o caso de Babadook e Corrente do Mal, por exemplo.

Nesse cenário, A Bruxa se prova um filme único. Consegue ser um trabalho de cuidadoso apuro artístico, com uma preocupação visual rara nos longas recentes do gênero, e ao mesmo tempo uma história genuinamente assustadora sem, no entanto, recorrer aos tradicionais sustos gratuitos que já se tornaram praxe.

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Ainda assim, não é à toa que o filme vem enfrentando a resistência de quem esperava por um terror mais tradicional. O diretor estreante Robert Eggers demonstra uma grande preocupação em construir uma atmosfera tensa, seja através de uma fotografia escura e opressiva que encontra seu ápice em cenas interiores à luz de velas, seja pela gélida frieza que consegue imprimir nas relações de família, que logo, naturalmente, evoluem para algo além.

Um bom desenvolvimento narrativo e a criação de uma atmosfera crível, porém, têm seu preço. É preciso tempo, e tempo é algo que os fãs do horror raramente se dispõem a ceder, ansiosos como estão por sustos, sangue e a coisa toda.

O fato é que Eggers gasta longos minutos desenvolvendo a instável relação entre Willian (Ralph Ineson), Katherine (Kate Dickie) e os filhos Thomasin (Anya Taylor-Joy), Caleb (Harvey Scrimshaw), Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson). O elenco, sempre ótimo, com destaque para as interpretações de Ineson, Dickie e dos jovens Scrimshaw e Taylor-Joy, constrói um ambiente familiar de constante ameaça, em que a religião e a moral têm papel essencial na forma como aquelas pessoas se relacionam.

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Afinal, a história se passa nos EUA do início do século 17, quando o país ainda era jovem e fundamentalmente supersticioso. A solução encontrada para recriar esse passado distante com um orçamento baixo foi escrever um roteiro em que os personagens se caracterizassem pelo isolamento (em relação à sociedade e também entre si), permitindo que essa reconstituição se focasse nos figurinos, diálogos, na fotografia e principalmente na psicologia desenvolvida ali.

De certa forma, todo espectador de filme de terror adentra uma atmosfera de superstição típica dessa época sempre que as luzes do cinema se apagam e a tela se acende. Em A Bruxa, isso se mistura com um ambiente em que mulheres são culpabilizadas simplesmente por serem mulheres (o que, convenhamos, não mudou tanto assim) e em que as crenças de seus personagens são tão arraigadas e imutáveis que mais facilmente se tornam realidade do que deixam de existir.

Isso tudo é mostrado em alguns momentos de maneira simbólica, em outros de forma bastante direta. A tentação do mal a que esta família acredita que está sendo submetida, ilustrada muitas vezes pelo despertar sexual experimentado por dois dos filhos do casal, remete diretamente ao fato de ter sido excomungada da paróquia onde vivia, adentrando um ambiente novo, onde a sombra do pecado ronda constantemente.

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Os 30 minutos finais são uma ótima demonstração de medo puro e inteligente, que raramente se encontra no cinema atual. A “mensagem” é tão impactante quanto o calafrio que a força das imagens dá na espinha.

Fugir do tradicional sempre tem suas dificuldades, que desta vez envolvem desafiar as expectativas do público, algo que o cinemão de terror está devendo. Neste caso específico, as virtudes certamente compensam.

Cotação-4-5A Bruxa - poster nacionalA Bruxa (The Witch)

Direção:
Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian RIchings, Wahab Chaudhry, Brooklyn Herd, Derek Herd, Viv Moore, Jeff Smith, Madlen Sopadzhiyan, Ron G. Young.

Gênero: Drama/Suspense/Terror

Duração: 92 minutos

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