Deuses do Egito | Crítica

deuses_do_egitoO cinema sempre teve algo de maravilhoso. Houve tempos em que uma atriz como Elizabeth Taylor podia interpretar uma rainha egípcia apenas usando uma peruca, maquiagem e trajes luxuosos. Existiu também uma época em que o americaníssimo Charlton Heston e o russo Yul Brynner viravam príncipes do Egito sem problema algum, angariando ainda prêmios e glórias por onde passavam.

Esses foram belos tempos para o cinema, quando o que se via na tela representava grande parte do conhecimento que tínhamos sobre lugares e épocas distantes. Pouco importava que esses filmes tivessem pouco ou nada a ver com a realidade. Eles atraíam público por seu exotismo, por cenários imensos e suntuosos e (por que não?) pela presença de grandes estrelas de Hollywood.

Desnecessário dizer que esses tempos chegaram ao fim. É principalmente por isso que um filme como Deuses do Egito parece tão deslocado, brega, caricato e francamente ofensivo em uma realidade exigente e globalizada como a que temos hoje.

deuses_do_egito2Para quem não sabe, o filme começou com uma grande polêmica: a narrativa sobre divindades egípcias que dividem espaço na Terra com a população humana não tem um único ator egípcio em seu elenco. Ao invés disso, o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau (de Game of Thrones), o escocês Gerard Butler, os australianos Brenton Thwaites e Geoffrey Rush, a francesa Élodie Young e o americano Chadwick Boseman interpretam os principais personagens.

É até curioso que em um filme com espaço para tantas nacionalidades ninguém tenha pensado em, quem sabe, escalar um ator egípcio. Hollywood tem se mostrado lenta para se adaptar a novas realidades, e os problemas de representatividade se repetem com frequência, a ponto de este ter sido o grande destaque da última cerimônia do Oscar.

Mas, polêmicas à parte, não é só isso que faz de Deuses do Egito a hecatombe que é, embora haja uma influência inegável. Das atuações over e caricatas aos cenários bregas carregados de um CGI da pior qualidade, passando por um roteiro requentado que faz pouco sentido e por cenas de ação risíveis, é difícil pinçar alguma coisa que realmente dê certo aqui.

deuses_do_egito3Pode-se aplaudir, por exemplo, o fato de o filme ser um produto que não se baseia em nada anterior (a não ser, é claro, uma mitologia com milhares de anos de existência). Não havia nenhuma franquia, HQ, livro ou vídeo game de sucesso que garantisse um retorno de bilheteria razoável para o filme. Até por isso, o investimento de US$ 140 milhões no longa foi algo extremamente arriscado e que não deve ter um retorno satisfatório.

O roteiro, que segue a jornada do humano Bek (Thwaites) e do deus Hórus (Coster-Waldau) em busca do trono usurpado pelo pérfido Set (Butler, reeditando aqui os gritos e a histeria de seu Leônidas em 300), é até desnecessariamente complicado e introduz tantos elementos ao universo desta história que muitos são só citados ou vistos de passagem, sem muitas explicações. Percebe-se uma intenção de homenagear os grande épicos desérticos do passado, mas o filme ignora ou utiliza mal os elementos que tornavam aqueles filmes tão divertidos.

Uma das escolhas mais estranhas, do ponto de vista visual, é fazer com que os deuses sejam ligeiramente mais altos que os humanos. O objetivo devia ser desmistificar essas divindades e aproximá-las do humano. O efeito, no entanto, é diferente. Torna-se quase hilário, na verdade, enxergar aqueles semigigantes sendo atendidos ou interagindo com humanos apenas alguns palmos mais baixos.

O cineasta Alex Proyas já havia demonstrado muito talento para criar visuais e atmosferas sombrios em filmes como O Corvo e Cidade das Sombras, mas sua produção vinha decaindo sensivelmente nos últimos anos. Em Deuses do Egito, ela alcança o fundo do poço, com uma representação genérica e kitsch das paisagens egípcias. Os efeitos especiais são particularmente fracos, fazendo com que o filme se assemelhe visualmente a um jogo de vídeo game de algumas gerações atrás.

É difícil entender como os produtores, o estúdio e o próprio diretor não perceberam os muitos problemas por trás da produção antes que o longa fosse lançado. Ou talvez tenham percebido, já que não houve sessão antecipada para a imprensa em lugar algum. Considerando o desempenho fraquíssimo que o filme vem tendo nas bilheteria, não deve ter feito muita diferença.

E, apesar dos pesares, há ao menos um sério motivo para se ficar triste com o flop de Deuses do Egito. Com tantas novas franquias fracassando de maneira espetacular antes mesmo de nascerem, a tendência é que Hollywood aposte ainda mais nas intermináveis sequências, remakes, reboots e filmes de super-heróis de sempre, e menos em produções originais.

Cotação-1-5Deuses do Egito - poster nacionalDeuses do Egito (Gods of Egypt)

Direção: Alex Proyas

Roteiro: Matt Sazama e Burk Sharpless

Elenco: Gerard Butler, Nikolaj Coster-Waldau, Elodie Yung, Abbey Lee, Courtney Eaton, Brenton Thwaites, Geoffrey Rush, Rufus Sewell, Chadwick Boseman, Emma Booth, Bruce Spence, Bryan Brown, Emily Wheaton, Goran D. Kleut, Marisa Lamonica, Rachael Blake, Rachel Joseph, Wassim Hawat, Yaya Deng, Julian Stone.

Gênero: Ação/Aventura

Duração: 127 minutos

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