13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi | Crítica

13_horasEm determinado momento do filme 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi, um dos tais “soldados secretos” do título solta uma frase que seus companheiros passarão o restante do tempo tentando decifrar, enquanto fogem de tiros, porradas e bombas em uma noite particularmente agitada na embaixada dos EUA na Líbia: “Todos os deuses, todos os infernos, todos os paraísos estão dentro de você”.

A frase não tem muito a ver com a situação daqueles seis homens, que encontram um inferno real aparentemente bem fora deles mesmos, mas reflete um pouco da mentalidade por trás do filme e de toda a filmografia de seu diretor, Michael Bay.

Não que Bay siga sempre à risca os tópicos apontados por Joseph Campbell no livro de onde a citação foi retirada, O Poder do Mito, uma obra que detalha a trajetória dos heróis clássicos em narrativas de ficção. Seus filmes, no entanto, são quase sempre sobre a construção de heróis masculinos modernos, que ganham proporção quase mitológica (Sem Dor, Sem Ganho é uma curiosa exceção).

Em nenhum deles, a característica fica tão evidente quanto nesta história baseada em acontecimentos reais,  na qual os personagens principais são enquadrados de posições baixas pelas câmeras, deixando clara sua condição superior, quase digna de deuses.13_horas4Esses soldados (Jack, interpretado por John Krasinski, é o que assume a posição de protagonista) vivem, entre os anos de 2011 e 2012, na embaixada americana na Líbia, um país recém-saído de uma ditadura de décadas e com uma conjuntura política instável. Ali, são vistos como uma força oculta, considerada inútil por agentes da CIA, que enxergam a possibilidade de ataques como nula.

O roteiro de Chuck Hogan, baseado no livro de Mitchell Zuckoff, constrói os personagens da forma mais previsível possível. Quando estão juntos, eles fazem piadinhas misóginas ou de cunho sexual. Momentos antes da ação, falam com suas famílias com uma trilha sonora emocionante ao fundo. Um deles descobre que a esposa está grávida. Todos estão loucos para voltar para casa.

Inicialmente desprezados, assumem a posição de liderança quando a coisa começa a esquentar. Afinal, os diplomas de Harvard e Yale dos agentes da CIA não servem para muito na guerra. No campo de batalha, é óbvio que esses soldados pretendem defender a honra de seu país a qualquer custo (“Eu tenho a intenção de oferecer a vida pelo meu país. E você?”, pergunta um deles a um radical líbio. A cena, é claro, trata a questão como se fosse retórica).

O triste é que a misoginia não se limita apenas ao pensamento dos personagens, mas parece inerente ao filme. A única personagem feminina, a agente Sona (Alexia Barlier), é tratada como uma chata que impede os militares de fazerem seu trabalho. Quando entra em ação, a primeira coisa que faz é tropeçar e cair de rosto no chão, como se o filme quisesse frisar o quanto sua presença ali é inadequada.13_horas3Assim como nos filmes da saga Transformers, todos eles dirigidos por Bay, a edição aqui é frenética e os cortes tão rápidos que nem sempre fazem muito sentido. Há uma necessidade de se criar tensão mesmo quando não há muita coisa acontecendo em tela. O resultado é que um grande naco de ação lá para o meio do filme se torna praticamente ininteligível. Não se sabe quem está atirando, quem está sendo atingido, para onde as pessoas estão correndo e por que.

O pior de tudo, no entanto, é o quanto o longa não sabe o que fazer com o que aparenta ser sua mensagem. Ainda que coloque seus personagens para dizer a todo momento que é impossível distinguir quem são seus reais inimigos ali, a conclusão a que a narrativa parece chegar é que nenhum líbio merece confiança.

Em meio à confusão, a falta de suporte do próprio governo norte-americano perde seu potencial crítico e é transformada em uma rusga pessoal com “o chefe” (David Costabile), da CIA, que ganha contornos de incompetência quase vilanescos.

No fim das contas, o filme se divide em dois e é incapaz de seguir até o fim em qualquer de suas abordagens.13_horas5

Ainda que insista em mostrar as mulheres líbias chorando por seus familiares mortos em combate, os líbios são sempre tratados como bárbaros, e seu modo de vida, visto como incompreensível pelos soldados. Estes, mostrados como o lado bom e humanos da coisa (e o espectador nunca tem a chance de enxergar o conflito por olhos que não sejam americanos), forçam o espectador a concordar com sua avaliação.

A homenagem a heróis mortos em batalha é o que muito provavelmente atraiu o público americano ao cinema, além da afinidade natural com assuntos bélicos. Há também uma outra mensagem tímida, passada de maneira confusa, de que americanos não deveriam lutar por países e povos por quem não têm a mínima simpatia. Se bem desenvolvidos, ambos os aspectos poderiam ter gerado um filme infinitamente mais interessante.

Cotação-1-513 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi - poster nacional13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi (13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi)

Direção: Michael Bay

Roteiro: Chuck Hogan, baseado no livro de Mitchell Zuckoff

Elenco: John Krasinski, James Badge Dale, Pablo Schreiber, David Denman, Dominic Fumusa, Max Martini, Alexia Barlier, David Costabile, Peyman Moaadi, Matt Letscher, Toby Stephens, Demetrius Grosse, David Giuntoli, Mike Moriarty, David Furr, Kevin Kent, Freddie Stroma, Andrew Arrabito, Kenny Sheard, Christopher Dingli.

Gênero: Ação/Drama/Guerra

Duração: 144 minutos

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