Deadpool | Crítica

Uma das maiores reclamações feitas sobre os filmes de super-heróis em geral, e mais especificamente os da Marvel, é que as produtoras adaptam seus conteúdos de forma excessivamente infantilizada para garantir uma classificação PG-13 – o que significa que algumas coisas não são adequadas para crianças abaixo de 13 anos, mas, na prática, todo mundo vai poder entrar na sala de cinema.

Ainda que controversa, a opção por retirar qualquer conteúdo sexual, violento ou ofensivo dos filmes faz muito sentido para as produtoras, que têm nas famílias seu principal público.

O que fazer, porém, com um personagem cujos atrativos são um humor pesado e politicamente incorreto e a violência explícita na hora de enfrentar os inimigos, frequentemente desmembrando capangas não identificados sem nenhuma piedade?

A resposta, você vai descobrir, veste um collant vermelho bem justo e chegou esta semana aos cinemas.

deadpool2Deadpool pode ser um filme apropriado apenas para adultos, mas a mentalidade de seu protagonista, Wilson Wade (Ryan Reynolds), é equivalente à de um adolescente de 15 anos ou menos. Como aquele que se sentava no fundão da sala e fazia piadinhas sarcásticas quando o professor não estava olhando, só que elevado à milésima potência.

Nos letreiros engraçadinhos do início, os roteiristas Paul Wernick e Rhett Reese (que já trabalharam juntos no ótimo Zumbilândia e no péssimo G.I. Joe: Retaliação) são chamados de “verdadeiros heróis desta história”. Apesar da ironia, não deixa de ser verdade, já que o principal motor do filme é o seu roteiro esperto, por vezes engraçado até as raias da obscenidade.

Aliás, o roteiro e Reynolds, numa performance que deve surpreender quem espera por atuações apenas no automático nos filmes do gênero. Depois de passar anos tentando levar às telas uma versão fiel aos quadrinhos e procurando apagar a má impressão que ficou com a aparição do personagem em X-Men Origens: Wolverine, Reynolds finalmente faz jus ao Deadpool que tantos adoram. E que outros tantos odeiam, é bem verdade.

Apesar de ser um trabalho mais de voz do que uma interpretação completa – Wade aparece por trás da roupa de Deadpool durante a maior parte do filme –, o ator consegue imprimir no personagem um cinismo divertido, enquanto projeta também uma certa fragilidade, como se o humor fosse uma estratégia para evitar enfrentar seus problemas.

deadpool3Deadpool é algo bem diferente do que estamos acostumados a ver, ainda que no fundo seja uma história de origem. Em primeiro lugar porque Wade não é nenhum herói. E isso não é só algo dito da boca para fora para que no final ele surpreenda a todos salvando o dia, como geralmente acontece. Não mesmo.

Em segundo porque, assim como nas HQs, aqui Deadpool tem consciência de que está em um filme e com frequência quebra a quarta parede para conversar cara a cara com o público.

Em terceiro porque, enquanto segue os passos de sempre (editados de uma forma dinâmica e não-linear que funciona muito bem dentro da proposta), o filme faz questão de apontar o que há de ridículo em cada detalhe, usando não apenas referências do próprio filme, mas também a outros personagens famosos (Wolverine é um dos favoritos), assim como alusões à cultura pop, ao passado negro de Ryan Reynolds e até ao próprio estúdio Fox.

Em meio a tudo isso, soa surpreendente que um filme que se leva tão pouco a sério consiga construir uma relação tão interessante entre Wilson e sua namorada, Vanessa (Morena Baccarin). A primeira cena do casal, uma divertida competição para saber quem teve a infância mais sofrida, já dá o tom da interação entre os dois daí para frente.

deadpool4Deadpool, na verdade, é o filme perfeito para o momento que o gênero dos superpoderosos vive hoje. A fórmula soa cada vez mais desgastada e repetida, e cada novo anúncio já não é mais seguido de uma atmosfera de expectativa, e sim de suspiros de resignação.

Não que Deadpool reinvente o gênero. Trata-se de um desvio do tradicional, que dá certo porque subverte uma série de aspectos que já estavam saturados. E saber rir do absurdo que é tudo isso pode ser uma boa estratégia não apenas para um filme de sucesso, mas para o gênero como um todo.

Os grandes estúdios podem até achar que Deadpool não é o herói que eles querem, mas no momento é o herói de que precisam para reavivar a coisa toda.

Verdade que a tarefa para os filmes que estão por vir fica um pouco mais complicada. O que fazer quando saírem os próximos Vingadores ou Batman vs. Superman e não houver nem sangue, nem sexo, nem piadinhas de baixo calão? Por ora, aguardemos os próximos capítulos.

Cotação-4-5Deadpool - poster nacionalDeadpool (Deadpool)

Direção: Tim Miller

Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick, baseado nos quadrinhos de Rob Liefeld e Fabian Nicieza

Elenco: Ryan Reynolds, Ed Skrein, Morena Baccarin, Karan Soni, Michael Benyaer, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand, Style Dayne, Kyle Cassie, Taylor Hickson, Ayzee, Naika Toussaint, Randal Reeder, T.J. Miller, Isaac C. Singleton Jr., Justyn Shippelt, Donna Yamamoto, Jed Rees, Hugh Scott, Gina Carano, Cindy Piper, Emily Haine, Aatash Amir, Chad Riley, Paul Belsito, Darcey Johnson, Leslie Uggams, Kyle Rideout, Jason William Day, Stan Lee.

Gênero: Ação/Aventura/Comédia/Ficção

Duração: 108 minutos

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