A Garota Dinamarquesa | Crítica

O longa A Garota Dinamarquesa causou protestos antes mesmo de sua estreia pelo público transgênero, por retratar, mais uma vez, uma personagem que é uma mulher transexual através de um ator cisgênero. O mesmo tipo de revolta já havia acontecido com Clube de Compras Dallas, principalmente depois que o ator Jared Leto ganhou vários prêmios, inclusive o Oscar, por sua interpretação de uma mulher trans, e se colocava em seus discursos de agradecimento como um porta-voz do movimento, embora se referisse à personagem como uma “criatura” maravilhosa. Mas Leto não é porta-voz, nunca poderia ser, simplesmente porque essa luta não é dele.

Mas é o que Hollywood está fazendo, achando que está dando representatividade para um grupo colocando homens-cis-brancos-heterossexuais como protagonistas, da mesma forma que eles já representaram mulheres e negros no passado. Isso na verdade só reforça o preconceito de que uma mulher trans é simplesmente um homem que se traveste, e vice-versa.

E as desculpas para isso são as mais variadas. O diretor de Clube de Compras Dallas, Jean-Marc Vallée, não foi nem um pouco sensível e simplesmente respondeu que escalou um homem pois a personagem se tratava de um homem que se vestia de mulher (!?), já Tom Hopper, diretor deste, tentou justificar que o filme se tratava da transformação de Einar em Lili, portanto um homem ficaria mais crível.

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Bem, numa época em que contamos com tantos recursos visuais, é difícil pensar porque uma atriz trans, ou mesmo uma atriz cis (Nicole Kidman tentou produzir e protagonizar A Garota Dinamarquesa por anos) não poderia interpretar o mesmo papel tão bem. E isso faria toda a diferença, é só assistir Tangerine, Orange is the New Black, Sense 8 ou até mesmo Transamérica, por exemplo.

Mas voltemos à crítica ao filme. Além da atuação extremamente calculada de Eddie Redmayne, que tem seus momentos, porém na maior parte do tempo soa artificial, o filme em si é raso e falha ao retratar a biografia da artista plástica que foi a primeira mulher transgênero a se submeter à cirurgia de redesignação sexual, pois mostra a personagem como alguém com dupla personalidade, que basta colocar vestido e maquiagem para se transformar, e ainda precisa aprender a ser mulher imitando-as.

Em relação à direção, é tudo muito belo, o design de produção e figurinos dos anos 1920 são impecáveis, em tonalidades que lembram as pinturas dos fiordes dinamarqueses feitos pela artista, é também cheio de planos e enquadramentos fluidos, que dão um ar ultra-romantizado e lírico para a história, mas não vai além disso.

A melhor coisa do filme é a interpretação cheia de nuances de Alicia Vikander como a esposa de Lili, Gerda Wegener, que transmite com sutileza todos os conflitos internos de ver seu marido se transformando, mostrando apenas com olhares sua percepção de que Einar sempre foi, na verdade, uma mulher.

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Percebe-se que A Garota Dinamarquesa foi uma produção cara, visando prêmios, pela temática e toda a produção envolvida, mas jamais tem coragem de ir a fundo no universo tão complexo que é a transexualidade, a começar pela escalação da protagonista. Se o assunto está tão em voga, se as pessoas estão mais abertas a conhecer, por que Hollywood insiste em  maquiar as coisas? Lili Elbe é uma precursora, uma pena que o filme dedicado a ela não faça justiça ao que é, de fato, ser transgênero.

Cotação-2-5

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

A Garota Dinamarquesa - poster nacional

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lucinda Coxon, baseado no livro de David Ebershoff

Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Adrian Schiller, Amber Heard, Tusse Silberg, Emerald Fennell, Henry Pettigrew, Claus Bue, Peter Krag, Angela Curran, Pixie, Richard Dixon, Pip Torrens, Nancy Crane, Nicola Sloane, Sonya Cullingford, Matthias Schoenaerts, Clare Fettarappa, Jake Graf.

Gênero: Drama/Romance

Duração: 119 minutos

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