Tangerine | Crítica

tangerineA gente tende a ficar tão acostumado com o que vê sempre no cinema que quando algo desafia, ainda que de forma absolutamente natural, o que se espera de determinado filme, o sentimento inicial é de desconforto.

Tangerine não faz nada de novo no que toca à narrativa, nem ao trabalho com a câmera – filmar com iPhone pode ter sido novidade alguns anos atrás, mas hoje é apenas mais uma particularidade divertida que já ganhou espaço em diversos festivais independentes.

O que o longa faz de “novo” é o que deveria ser feito sempre, mas que, por motivos que não cabe detalhar aqui, é com frequência substituído por algo que supostamente cai melhor no gosto do povo. Ou melhor, algo que prefere não arriscar muito para não ferir os sentimentos sensíveis do público que, afinal, é quem paga o arroz com feijão dessa galera.

A tal novidade não é nada além do que colocar Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) e Alexandra (Mya Taylor), duas transexuais, como personagens principais em uma história fundamentalmente sobre elas e que não busca apenas uma desculpa para desfilar na tela os lugares comuns de sempre, sobre uma sociedade exploradora e engolidora de almas.

tangerine2O filme é um recorte no dia de duas amigas, que partem em uma jornada pelas ruas de Los Angeles, onde também trabalham como prostitutas,  para descobrir quem é a mulher com quem Chester (James Ransone) trai Sin-Dee Rella, sua namorada.

O diretor Sean S. Baker constrói um equilíbrio curioso ao colocar na boca de suas personagens falas caricatas e muitas vezes exageradas, ao mesmo tempo em que evita justamente isso ao desenvolver suas personalidades. Significa que todas as personagens estão sempre muito além do que aquilo que dizem, e entender quem elas realmente são não se resume a compreender seus diálogos.

Isso só funciona porque há ali ao menos uma atriz excelente e um elenco todo muito bom. Mya Taylor é claramente o destaque. A garota diz tanto com o olhar e com o rosto que talvez nem precisasse dizer uma única palavra – ainda assim, ela dubla divinamente.

É gostoso ver o quanto o filme não toma partido e se esforça para dar uma realidade consistente para todo aquele rol de personalidades, que inclui também um taxista armênio cliente de Sin-Dee Rella, além de sua sogra desconfiada e da esposa um tanto conformada, ainda que não saiba exatamente por que.

tangerine3Foi um negócio tão estranho ver um filme que finalmente aborda o cotidiano de personagens trans sem precisar colocá-las sob a sombra de alguma grande ameaça (a Aids e o preconceito da sociedade são os mais usuais) e que se contenta em desenvolver sua relação ao longo de 90 minutos que fiquei um tempo tentando desvendar qual era o verdadeiro tema do filme.

Eu, é claro, fui um idiota. A última cena – e o filme como um todo, na verdade – é uma experiência desarmante que recomendo sem restrições para quem quer que seja.

Cotação-4-5

Tangerine - poster nacionalTangerine (Tangerine)

Direção: Sean Baker

Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch

Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, Mickey O’Hagan, Alla Tumanian, Ana Foxx, Arsen Grigoryan, Chelcie Lynn, Clu Gulager, Ian Edwards, James Ransone, Luiza Nersisyan, Scott Krinsky, Julie Cummings, Jason Stuart, John Gulager, Richie Lillard, Shih-Ching Tsou, Katja Kassin, Angelique Banks.

Gênero: Comédia/Drama

Duração: 88 minutos

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