Filho de Saul | Crítica

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Nesta quinta-feira, chegaram ao cinema dois filmes sobre jornadas profundamente individuais em meio a condições de sobrevivência sub-humanas. Esteticamente, seus diretores tomaram decisões muito parecidas, desenvolvendo planos-sequência de maneira cuidadosa com o objetivo de mostrar a hostilidade do ambiente ao redor em toda a sua extensão.

Os filmes são os indicados ao Oscar O Regresso e Filho de Saul. Suas semelhanças, porém, ficam mesmo por aí. Um opta por encobrir o vazio de sua narrativa de vingança e de seus personagens sem expressividade com uma dose cavalar de violência gratuita, uma constante ao longo da carreira do diretor.

O outro usa de forma inteligente suas escolhas estéticas para traçar o perfil complexo de um homem morto, cuja motivação, ainda que nunca totalmente esclarecida, é um motor para entender não apenas o indivíduo, mas o funcionamento do mundo em que ele vive.

Saul (Géza Röhrig) começa como um homem recolhendo corpos em um crematório, em um campo de concentração nazista não identificado. Seu rosto é uma máscara que permanece misteriosamente inexpressiva durante a maior parte do tempo. O corpo maltratado, um guia para os horrores que ele e mais centenas de milhares de judeus enfrentam diariamente.

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O cineasta László Nemes, diretor de primeira viagem (tudo bem que já tinha no bolso a experiência de dois anos trabalhando como assistente de Béla Tarr, um dos cineastas mais aclamados das últimas décadas), opta por filmar a ação nos cantos da tela, muitas vezes de passagem e sem foco.

O trabalho de som faz algo similar ao construir, com silêncios e diálogos em sussurros, a constante sensação de ameaça, natural para quem vive dentro daquela realidade há tanto tempo.

Perceber o que acontece de forma incompleta é uma situação desesperadora, que só ajuda a tornar mais densa a atmosfera que cerca as humilhações e sofrimentos físicos e mentais do protagonista. Os movimentos de câmera, apesar de parecerem casuais, na verdade são milimetricamente planejados para que cada sequência se encaixe como uma pequena peça no todo psicologicamente complexo do filme.

No centro dele, está a figura sempre enigmática de Saul. Não sabemos de onde veio, embora paire sobre sua figura a certeza de saber para onde vai. Na vizinhança, pessoas desesperadas por viver, mas não é o seu caso.

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Fica a impressão de que se trata de um homem intimamente destruído, incapaz de se conectar com o sofrimento compartilhado por seus companheiros,  e cujo último ato é uma forma de compensação por algo. Esse algo nunca é explicado, assim como não é explicitada em momento alguma a relação que tem com seu filho, se é que tem alguma.

Para um filme que deixa tantas coisas no ar, Filho de Saul é surpreendentemente profundo e reflexivo, com um final que consegue ser poético e visualmente belo sem deixar de lado a brutalidade inerente a tudo que existe naquele universo.

Não dá para dizer que Nemes fez algo novo aqui, mas o todo soa bastante diferente de tudo que já vi. Além de tecnicamente perfeito, é um filme com um algo a mais. Não me surpreenderia se, daqui a alguns anos, ganhasse status de clássico.

Cotação-5-5

Filho de Saul - poster nacionalFilho de Saul (Saul Fia)

Direção: László Nemes

Roteiro: László Nemes e Clara Royer

Elenco: Géza Röhrig, Amitai Kedar, Attila Fritz, Christian Harting, Eszter Csépai, Jerzy Walczak, Juli Jakab, Kamil Dobrowolski, Levente Molnár, Marcin Czarnik, Mendy Cahan, Molnar Levente, Sándor Zsótér, Todd Charmont, Urs Rechn, Uwe Lauer, Péter Takátsy, Björn Freiberg, Erno Fekete, István Pion.

Gênero: Drama

Duração: 107 minutos

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