Trumbo – Lista Negra | Crítica

Trumbo

Muito antes da paranoia terrorista que vem assolando os Estados Unidos após o 11 de setembro, existia outra perseguição que tirava o sono do cidadão americano de bem: o comunismo. No final da década de 40, com o início da Guerra Fria, era de se esperar que a ideologia importada da União Soviética fosse devidamente demonizada pelas frentes conservadoras, e os americanos adeptos de Karl Marx passaram a ser perseguidos.

Basicamente é esse o pano de fundo de Trumbo – Lista Negra (Trumbo), a cinebiografia do oscarizado roteirista Dalton Trumbo (autor, entre outros, de Spartacus, e aqui interpretado por Bryan Cranston), que juntamente com outros artistas de Hollywood, foi perseguido e passou a ser boicotado dentro da indústria quando se tornou alvo do Comitê de Atividades Antiamericanas.

Desde sua cena inicial, o diretor Jay Roach trabalha com o fetiche do processo da escrita de Trumbo (algo semelhante ao que Spotlight faz pelo jornalismo). Não o texto, mas especificamente a forma como era feito, à moda antiga, usando e abusando do som das máquinas e da fumaça dos cigarros para tecer uma aura de sedução.

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Mas o alvo principal do filme é realmente buscar fazer um mea culpa. Tirar o “elefante da sala” soa como meta a ser alcançada. O resultado é um filme de tentativa de reconciliação histórica com os injustiçados de Hollywood, utilizando a glorificação da figura de Trumbo em contraponto à vilanização dos seus detratores.

Trumbo é mostrado sempre fazendo discursos, seja para a família, para os amigos, em entrevistas para TV, ou dando depoimento no Congresso. Tudo que sai de sua boca soa como uma lição a ser aprendida ou algo que deveria ser “gravado em uma pedra”. Nem mesmo as pequenas insinuações de problemas familiares são suficientes para desmistificá-lo (algo que lembra muito a cinebiografia de Lincoln).

Por outro lado, Jay Roach faz a mesma construção monocórdica dos seus antagonistas. O conservadorismo americano está presente em figuras que têm suas características  realçadas de forma mais espalhafatosa, como a frieza de uma colunista de importante periódico e defensora ferrenha do anticomunismo, o circo hipócrita numa sessão do Congresso e na figura de um John Wayne que mais parece um robô republicano.

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Em determinado momento de Trumbo – Lista Negra, o personagem título faz um pequeno discurso no alto de um palco, recebendo um prêmio numa contraluz azul. Ele fala sobre olhar para os erros do passado, mas sem buscar heróis ou vilões. Não deixa de ser justamente o oposto do que o filme propõe.

Ainda assim, entre a elaboração de heróis míticos e caricaturas vilanescas, sobra a boa atuação de Cranston e a relevância de se revisitar mais um absurdo da nossa história.

Cotação-3-5

Trumbo: Lista Negra (Trumbo)

Trumbo: Lista Negra - poster nacional

Direção: Jay Roach

Roteiro: John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook

Elenco: Bryan Cranston, Helen Mirren, Diane Lane, Alan Tudyk, Dan Bakkedahl, Dane Rhodes, David James Elliott, David Maldonado, James DuMont, Jason Bayle, John Getz, John Neisler, Johnny Sneed, Joseph S. Martino, Laura Flannery, Louis C.K., Madison Wolfe, Michael Stuhlbarg, Peter Mackenzie, Richard Portnow, Roger Bart, Toby Nichols.

Gênero: Drama

Duração: 124 minutos

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