Anomalisa | Crítica

Um homem entra em um quarto de hotel em Cincinnati. Ele se deita momentaneamente, escuta as recomendações em caso de emergência na TV, dá uma olhada no frigobar. Ao seu redor, todas as pessoas têm o mesmo rosto e lhe falam com a mesma voz (Tom Noonan), masculina e odiosamente tranquila.

O homem, como descobrimos um pouco depois, é um palestrante famoso que ensina lições sobre relacionamento com clientes. Secretamente, é incapaz de se relacionar com quem quer que seja. À beira do desespero, sozinho em um quarto de hotel que é o próprio símbolo da impessoalidade, relembra um antigo amor.

Não se poderia esperar que a primeira animação de Charlie Kaufman, um dos melhores e mais loucos roteiristas e diretores em atividade atualmente em Hollywood, fosse algo próximo de convencional. Como em Quero Ser John Malkovich ou Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Kaufman novamente envolve o espectador em uma história inesperada e repleta de estranhas surpresas.

Aqui não há personagens bonitinhos ou situações engraçadas, pelo menos não no sentido comum. A própria animação e o aspecto físico daqueles seres humanos – cujo rosto parece prestes a se desfazer a qualquer momento – e do mundo que os cerca, são elementos que constrangem e intimidam, algo claramente calculado desde a concepção do projeto.

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Michael Stone (voz de David Thewlis), o protagonista, sofre da pouco conhecida síndrome de Fregoli. Ou seja, acredita que todas as outras pessoas são uma mesma e única pessoa, sob diferentes disfarces. Como muitos dos personagens do extenso hall montado por Kaufman ao longo das últimas décadas, ele é um poço de neuroses e inseguranças.

No caso de Anomalisa, no entanto, a doença não é apenas uma doença. Ela simboliza um estado de espírito, ou uma condição de tédio e mesmice da qual o protagonista é simplesmente incapaz de escapar.

Em meio ao caos, surge uma salvação temporária. Lisa (Jennifer Jason Leigh), uma atendente de telemarketing também complexada, com baixa autoestima e cujo nome gera a “brincadeira” do título, é a única pessoa que não se parece com todas as outras.

Kaufman é frequentemente lembrado como um dos melhores roteiristas da atualidade não apenas devido às histórias amalucadas. Suas narrativas também são capazes de despertar sentimentos delicados e complexos a partir de momentos incrivelmente estranhos.

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É o que acontece quando Lisa é estimulada a cantar sua música favorita ou durante uma cena de sexo bastante realista. Esta última causa um imenso desconforto porque, além de não ser usual na maioria das animações, é muito mais desajeitada e esquisita do que tórrida e romântica, como se convencionou tratar momentos do tipo no cinema.

Mais ainda do que na maioria dos projetos anteriores do cineasta, no entanto, em Anomalisa o que importa é o indivíduo, mais especificamente o protagonista, em um nível muito menor e mais intimista do que nas verdadeiras odisseias de Sinédoque, Nova York e de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.

Os tormentos de Michael Stone começam e terminam nele mesmo. Talvez até por isso tenha sido uma escolha tão acertada transformar os outros em uma mesma pessoa. De certa forma, eles são uma extensão do próprio Stone e de sua maneira crescentemente distorcida de enxergar o mundo.

Cotação-5-5

Anomalisa - poster nacionalAnomalisa (Anomalisa)

Direção: Duke Johnson e Charlie Kaufman

Roteiro: Charlie Kaufman, baseado em sua própria peça

Elenco: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan.

Gênero: Animação/Comédia/Drama

Duração: 90 minutos

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