Chelsea Does – 1ª Temporada | Review

Você provavelmente já deve ter lido alguma polêmica relacionada a uma das piadas da Chelsea Handler. Conhecida por não ter nenhum tipo de filtro na TV, Chelsea comandava um talk show na E! e dava abertamente suas opiniões sobre sexo, drogas, negros, estrangeiros, etc, e isso acabou se tornando sua marca, repetida quase que exaustivamente em suas participações em entrevistas e em seus espetáculos de stand-up.

marriage

Ou seja, ela sabe como atrair a atenção para si, logo não é de se espantar que a Netflix tenha topado uma produção quase que exclusivamente do modo como a apresentadora propôs: uma série-documentário com episódios de 1 hora em média, em que Chelsea aborda 4 temas polêmicos: casamento, racismo, tecnologia e drogas. Oscilando entre erros e acertos, a série consegue ao menos entreter e informar, mas falha quando é exigida uma atenção maior de sua apresentadora.

Os episódios em que Handler parece melhor são o do casamento e o do Vale do Silício, o primeiro porque Chelsea é conhecida por ser extremamente contra casamentos, e por fazer piadas com isso. O episódio toma diferentes perspectivas acerca do assunto, e embora nada novo seja apresentado, é ao menos divertido ver crianças e casais idosos opinando sobre relacionamentos.

Aqui, o sarcasmo da apresentadora se faz válido quando ela, por exemplo, entrevista três pessoas que vivem num relacionamento sadomasoquista e questiona a bizarrice dos relatos, ou ainda quando conhece o fundador do site Ashley Madison (rede social voltada para pessoas que queiram trair seus cônjuges). Apesar disso, em diversos momentos em que se propôs a fazer algo diferente, Chelsea já chegava na situação armada até os dentes, o que geralmente acabava na apresentadora sendo grossa sem necessidade.

tecnology

Esse clima de superioridade é deixado de lado quando o episódio é focado em tecnologia. Assumindo ser uma completa estranha aos diversos gadgets (seu empresário chega a afirmar que ela mal sabe usar o micro-ondas), Chelsea se dispõe a entrar nesse mundo de mente aberta, e diferente do episódio sobre casamentos, ela não deu nenhuma resposta ríspida desnecessária a ninguém (desconsiderei a piada final com o aplicativo porque claramente aquilo foi armado). É basicamente a fórmula do estranho no ninho, que usa o alívio cômico para tratar da nossa dependência da aprovação no mundo virtual.

A série, no entanto, desliza ao tratar sobe drogas e racismo. O primeiro tema é bem óbvio já a partir de sua premissa: “ei, que tal se eu usar um monte de droga e vocês filmassem e ainda me colocassem pra comandar uma entrevista?” É como se por mais de uma hora você observasse um amigo que usou maconha e fica olhando pra mão e rindo sem motivo, não há graça nenhuma nisso. Até quando ela viaja ao Peru para experimentar um forte alucinógeno em um ritual religioso fica claro que o objetivo é só ver como ela reagiria nessa situação o que aquele ritual de fato significa.

O episódio mais controverso, claro, foi o que tratou sobre racismo. Ele é bem pontual ao mostrar diferentes pontos de vista (entre eles negros, latinos, judeus, etc) e de saber criticar os conservadores extremos, como a comunidade do Sul que diz que não maltratavam escravos como se isso justificasse algo, ou quando o dono de uma sorveteria que fala de uma “separação voluntária” e defende que o holocausto do nazismo é apenas uma propaganda pós-guerra. Porém, ele peca ao deixar de abordar o racismo velado no dia-a-dia, principalmente vindo de Chelsea Handler que usa a ridícula desculpa de que não é racista simplesmente porque faz piadas com todo mundo.

drugs

Sua visão controversa perpetua por todo o episódio, em um momento ao visitar Belém, Israel, ela fica visivelmente abalada pela cidade ser cercada por um muro, mas um pouco antes ela deixa bem claro que apoia a revista todos os islâmicos em aeroportos por medo deles estarem carregando bombas. E ao ser questionada, ela sequer consegue manter a linha de argumentação e se confunde ao colocar a KKK em discussão.

Um ponto atual que poderia ser melhor abordado pelo fato de Chelsea ser uma comediante é o limite de uma piada, ela até chega a perguntar isso ao ativista de direito civis Al Sharpton, ao que eles responde: “Eu acho que você pode rir de si mesma sem tornar a sua cultura objeto de piada. É uma linha tênue e eu acho que as pessoas devem ser sensíveis a ponto de saber onde essa linha termina.” Chelsea, no entanto, parece sequer ter entendido o que Sharpton disse, já que termina o episódio rodeada de amigos basicamente dizendo que se sua piada fez alguém rir, então valeu a pena. Fica claro que ela está pronta ao apontar o preconceito alheio, mas quando a atenção é voltada para si, as justificativas começam a aparecer.

  • Cada episódio tem uma abertura e arte diferente, de acordo com o tema, todos no entanto foram dirigidos por Eddie Schmidt.
  • No episódio em que trata sobre casamentos, a ideia sobre os encontros é uma daquelas que parece boa no papel, mas que não funciona nem um pouco em vídeo, nem mesmo como material pra comédia.
  • O app “Gotta Go” foi de fato criado, e pode ser adquirido no iTunes.
  • Foi só aqui que aquela Inteligência Artificial botou medo? Creep demais.
  • As entrevistas com o psicólogo eram bem superficiais, aliás, o fato de ser um psicológo em nenhum momento se justifica a não ser pelo efeito de sessão que a direção dá, uma narração em off teria sido mais efetiva.

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