O Menino e o Mundo | Crítica

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Um menino sai pelo mundo atrás do pai. No caminho, encontra uma realidade que toma diversas formas, da beleza de um campo de algodão (não exatamente representado de maneira fiel) à existência cinzenta da metrópole.

Os traços de Alê Abreu lembram desenhos infantis feitos com giz de cera, daqueles que encontraríamos grudados com ímãs em alguma porta de geladeira. Correndo o risco de parecer tosco ou malfeito, o resultado alcançado é bem o contrário. A delicadeza das imagens, sua simplicidade, o contraste das cores são aspectos que fazem do filme uma experiência visualmente única.

A trilha sonora usada com extrema inteligência ajuda a dar ritmo à narrativa, que é basicamente muda. Isto é, os personagens até falam em alguns momentos, mas em uma língua que não existe.

A música é a válvula de escape para um universo opressor, em que predomina a diferença entre as propagandas, seja em gigantescos outdoors ou na tela oscilante de uma TV, e o que se vê fora delas. Para o menino, a vida parece reservar poucas chances de sucesso.

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Aliás, é difícil acreditar que uma animação tão colorida e de tema tão lúdico quanto O Menino e o Mundo seja capaz de passar um sentimento de tão profunda melancolia. O mundo descoberto pelo protagonista não é um mero país das maravilhas, mas um universo que também esconde por trás de sua beleza a exploração, a miséria e a solidão. Tudo isso sem que uma única palavra seja proferida.

Em alguns momentos o roteiro brinca com símbolos, alguns mais outros menos reconhecíveis. Talvez a cena mais impactante nesse sentido seja a luta entre dois pássaros pelo céu de uma cidade tumultuada e violenta, constantemente patrulhada por tanques e tropas de choque.

O que causa maior estranhamento inicial e depois um senso de fascinação impossível de quebrar é o fato de todo traço poder se transformar em qualquer outro objeto em um piscar de olhos. Cores se fundem sem que você perceba, para formar uma mistura igual e ao mesmo tempo completamente diferente do que existia antes.

Não há muitas animações por aí que tratem a sério de temas como envelhecimento ou exploração social. Se o fazem, é da maneira mais direta e didática possível, o que vale inclusive para os filmes da Pixar, por mais maravilhosos que sejam.

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O Menino e o Mundo, por sua vez, insiste em permanecer um meio mistério do início ao fim, deixando várias de suas alegorias abertas a inúmeras interpretações.

O final é um dos raros casos de total redimensionamento de tudo que você havia visto antes e torna a coisa ainda mais especial. Isso é o máximo que é possível dizer sem soltar um spoiler daqueles…

Então por que uma animação tão fantástica, produto raro em um país que não tem tradição alguma no gênero, foi vista por mais gente fora do Brasil do que dentro dele?

Uma das respostas está na própria questão: as distribuidoras não sabem vender um produto tão pouco usual no nosso mercado e certamente não têm grande interesse em desenvolver estratégias de marketing e lançamento próprias para fazê-lo.

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O outro dedo, no entanto, pode seguramente ser apontado para nós mesmos, o público. Por que só damos valor a um produto nacional quando ele ganha reconhecimento lá fora? O mesmo aconteceu com Que Horas Ela Volta?, que só passou a ter público ao ser confirmado como nosso candidato ao Oscar.

Esta crítica, por exemplo, não teria saído não fosse a indicação de O Menino e o Mundo na última quinta-feira. Sai, aliás, com dois anos de atraso, no mínimo. Porque sim, este texto é também uma admissão de culpa. Culpa por omissão. Esperando que no futuro não deixemos de lado outras pérolas como esta por pura preguiça ou desinteresse.

Cotação-5-5O Menino e o Mundo - posterO Menino e o Mundo (O Menino e o Mundo)

Direção: Alê Abreu

Roteiro: Alê Abreu

Elenco: Emicida, Vinícius Garcia, Nana Vasconcellos, Alê Abreu, Melissa Garcia, Lu Horta, Marco Aurélio Campos.

Gênero: Animação

Duração: 80 minutos

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